A Arte, e nela o Belo, podem adquirir as mais variadas formas e provocar as mais variadas sensações.
Com estes dois quadros temos estéticas (ou noções de estética) diferentes e isso é irresistivelmente perturbador e desafiante.
Com Velasquez temos a paz, a harmonia, as formas certas, as cores adequadas e bem distribuídas, um ambiente estruturado, "limpo", apropriado para estar, para pousar, para ficar.
Com Witkin temos o desarranjo, o quase fantástico ou surrealista, o desorganizado, a perturbação do equilíbrio, o absolutamente contrastante, o incómodo, o convite à fuga.
Estamos perante um cenário (com dois quadros) onde há o "verso" e o "reverso", onde a ideia ou noção de constância é posta em causa, onde a mesma realidade pode ser vista, interpretada e dada a conhecer e a apreciar de formas absolutamente distintas, onde o mundo, o ser e as coisas são concebidos numa dualidade incontornável, onde o sublime e o seu contrário são evidências, onde o previsto e o imprevisto se cruzam, descruzam e se podem acabar por fundir.
No fundo, a mesma realidade pode ser sempre entendida de forma diferente. Compete-nos a nós perceber isso e à Arte torná-lo (ainda mais) perceptível, pondo o Belo ao serviço do esclarecimento (Pragmatismo da/na Arte?).
A Arte deve ser também de intervenção.
O Artista deve ser (também) um porta voz dos problemas da Humanidade.
Aqueles que vão ao encontro das obras e daqueles que as concebem devem assumir uma postura onde para além do mero contemplar pelo contemplar e do sentir dai resultante, tenham também a capacidade para entrar na alma da obra, com todos os subjectivismos que dai possam resultar. Devem é, sempre, esforçar-se por ir ao encontro dessa alma. Para a rentabilização, potencialização e funcionalidade ainda maior dessa mesma Arte.
Sandra
Dito por Sandra no dia 21 de setembro 2003, às 15h31A "subversão" que Witkin faz do ideal de belo apaixona-me.
O trabalho dele fascina-me.
Dito por dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 17h06Sim, os contemporâneos subverteram o ideal aristotélico do belo - creio que começaram a fazê-lo de forma clara em finais do séc. XIX...
Os meus conhecimentos de História são poucos, pouquíssimos, mas arrisco a dizer:
- Velazquez compõe a sua obra segundo os padrões do Barroco (a sumptuosidade, o artificialismo e a vaidade das figuras representadas), mantendo a herança Clássica ( o rigor estático da composição e a concepção da arte como imitação da natureza/realidade representada - conceito aristotélico);
- Witkin (obrigado, dolphin.s, desconhecia este pintor) já revela a busca da realidade além da realidade, já revela particular atenção à psique.
Eu diria que Witkin olhou as figuras de Velazquez e lhes quis pintar a alma; então escavou-lhes a superfície e encontrou: uma menina rica mas oca, confinada à dependência dos que a rodeiam, aprisionada no seu estatuto social; um cão por natureza pouco dado a poses, mas que aprendeu a obedecer; meninas, e uma freira, e uma serviçal, que encerram em si o mal de que pensam estar protegidas; uma figura masculina (paternal?) que se afasta, abandonando a menina, porque já lhe arquitectou a vida, já dispôs as peças em palco - poderia ser a salvação da menina, se quisesse...; finalmente, um pintor, também ele pintado, que na verdade é meio cego porque não vê o que Witkin viu.
Dito por margem no dia 21 de setembro 2003, às 21h41Olá margem :)
Só um apontamento: o que torna (pelo menos para mim) o Witkin único e tão fascinante, é que ele não é pintor mas sim fotógrafo. Trabalha sobre montagens e muitas vezes usa corpos que compra em morgues.
O facto de só vermos "meia menina" não será uma ilusão de óptica ;)
agora arrepiaste-me!
mas olhar a morte talvez também seja uma forma de compreender a vida
gosto de alguns quadros de Magritte e recordei um, feito a partir de uma tela de Manet: onde Manet pintou três figuras numa varanda, Magritte pintou três caixões na "mesma" varanda
Dito por margem no dia 21 de setembro 2003, às 22h05:)
Gosto muito dos Lovers do Magritte.
Os quadros dele são sufocantes. Fazem-me sentir presa, fechada.
Dito por dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 22h23Quero complementar as informações sobre o grande fotógrafo com o seguinte aspecto, a menina não é um cadáver.
Nesta reformulação do quadro de Velasquez, Witkin serviu-se de humanos vivos. A menina é uma mulher adulta sem pernas.
O fotógrafo, para além de cadáveres ou partes de cadáveres, utiliza sobretudo monstros, pessoas com deficiências congénitas que apresentam malformações de todo o tipo.
Uma busca simples por Witkin num motor de busca irá dar-vos a conhecer vários trabalhos deste artista de culto.
Nas FNAC surge muitas vezes um livro dele... e existe sempre um exemplar aberto para desfolhar - com cuidado.
Dito por jm no dia 21 de setembro 2003, às 22h26grata pelas informações :)
após ler o que escreveram, tive de rever a imagem: e agora parece-me que ao mundo aparentemente perfeito das "meninas" de Velasquez se sobrepõe um outro mundo, aparentemente imperfeito, e os dois mundos são este em que vivemos
Dito por margem no dia 21 de setembro 2003, às 23h34A ideia de "Belo" tem sofrido evoluções ao longo dos tempos. Por isso a possibilidade sempre inesgotável da análise de uma obra, qualquer que seja a época a que se reporte a sua criação.
Temos muito para explorar. Cabe à Dolphin.s dar-nos essa oportunidade.
Para não variar, as informações sempre preciosas de jm...
Sandra
Dito por Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 09h12Te mando mi trabajo sobre la idea que nos inspira.
Atentamente; nacho benjumea
A mesma realidade pode ser sempre entendida de forma diferente.
No hablo portugués, pero ya quisiera ser entendido adecuadamente.
Atentamente; nachobenjumea
Sempre! :)
Obrigada nacho :)
e compreendi-te perfeitamente :)
Dito por dolphin.s no dia 29 de março 2004, às 21h48