Comentários à leitura "Amnésia In Litteris"

Não tenho dúvidas que há livros que podem mudar as nossas vidas. Que nos podem mudar. Ou que nos podem acordar de um sono mais ou menos prolongado e pesado que nos tolhe ou anestesia o consciente.
As interpretações que do seu conteúdo fazemos, importa dizê-lo, pode variar até quase ou infinito, pelo que a influência que aquele exerce em nós pode variar de indivíduo para indivíduo. De qualquer forma o que aqui é importante é a questão da influência, da potencialidade que cada livro contém para tornar diferente aquele que consigo (intimamente) se relaciona.
A relação pode ser terna, meiga, repleta de carícias, de abraços, de complicidades. Mas pode ser também caracterizada por uma maior frieza, ou por uma atenuada amálgama de sentimentos e de sentidos. Mas o que importa é que a relação existe. Sempre existe. Como naquelas que repletem a nossa vida. Tal como acontece aqui. Com diferentes níveis de intensidade. Ou com diferentes níveis de nada. Mas a relação existe.
Quero, pois acreditar, que num cenário em que me sento numa cadeira e olho para a estante e, face às lombadas dos livros, nada me lembro, é porque isso é tão só resultado da absorção que fiz de conteúdos que corriam o risco de ficar estagnados. É porque tal pode significar que, com a sua leitura, e após a sua conclusão, me exigi esvaziar os livros daquela que é a memória que têm de si, fazendo-a transportar para mim, naquela que é a construção de uma memória camuflada no meu "eu", transformando-me eu própria numa lombada, susceptível de qualquer tipo de exposição.

Sandra

Dito por Sandra no dia 26 de setembro 2003, às 21h16

A minha opinião sobre este artigo é que o senhor talvez exagere um bocado, quando diz que já se esqueceu de tudo ou quase tudo aquilo que leu. É um facto que há livros que lemos que depois se nos varrem completamente da memória. Mas há muitos outros que, pelo menos comigo, os consigo lembrar com muito detalhe. Por exemplo, refere-se "As Afinidades Electivas" e "Os Demónios", que são livros que eu já li há mais de um ano e que me lembro muito bem deles, com imensos detalhes. É dificil esquecer o personagem Kirilov, o tal que se quer matar para provar que Deus não existe, e o Stravoguine, anarca do mais puro que já existiu em plena era anarquista dos finais do século XIX. E muitas outras coisas. Assim como nas "Afinidades Eelectivas". Assim como muitos outros livros que eu me lembro.
No entanto, há lago que ajuda muito a preservar a memória. É a partilha com outras pessoas, o diálogo com outras pessoas que apreciam a leitura. Eu noto, particularmente, que há um antes e um depois, isto é, desde que eu comecei a partilhar as minhas leituras com outras pesssoas, que estas passaram a ficar mais bem gravadas na minha memória.

Quanto aos ultimos parágrafos, em que se diz que a "mudança" ocorre de forma indelével, nisso concordo absolutamente... por vezes acontece-me ler vários livros e sentir-me um mesmo... mas um dia, acontece-me qualquer coisa, e reajo e penso de uma maneira que me surpreende, e reconheço a linha de água desse comportamento, que deriva da experiência de leitura que fiz de alguns livros... isso é um facto.

Dito por Paulo Silva no dia 26 de setembro 2003, às 23h04

obrigado, Paulo. as tuas palavras definem aquilo que sinto tão frequentemente e tenho dificuldade em explicar. :)
Não li nada que se pareça com o sugerido pelo autor do texto, mas esqueço facilmente o que leio; depois é ter que reabrir os livros, reler passagens, sempre que quero lembrar alguma coisa; e o mesmo se passa com noticiários, documentários,... Então, muito do que leio se torna um vazio ou uma vaga ideia na memória. É frustrante!

Mas também a mim a partilha de leituras e comentários me tem ajudado em termos de memória. Só gostava de ter mais tempo...

Dito por margem no dia 27 de setembro 2003, às 00h32

Artigo?!!
É preciso saber ir para além das palavras...

Sandra

Dito por Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 06h41

"Artigo?!! É preciso saber ir para além das palavras..."

Sandra, elucida-me o que queres dizer com isso.... eu acho que percebi, mas queria ter a certeza.

Dito por Paulo Silva no dia 27 de setembro 2003, às 10h12

Vejo o conteúdo aqui apresentado como um intenso/aturado exercício de introspecção. "Artigo", tal como o entendemos, e de forma imediata, parece remeter para algo...diria...menos profundamente introspectivo. Antes, mais "divulgue-se" ou "venda-se", por favor. Enfim: questão de interpretação da forma e de preferência de convivialidade com a mesma.
Quanto às palavras, para além, daquilo a que o senso comum pode permitir reagir e dar resposta (e isto é uma impressão geral e não específica à interpretação deste texto, em particular), há tudo o resto que se encontra ao nível da essência e é nessa essência que é muitíssimo importante ir buscar formas ou resquícios (ou mais que resquícios) para interpretação. Daqui resultarão palavras (de todos nós) que nada mais revelarão do que a subjectividade que nos está inerente. Aqui, e a este nível, iremos diferentemente ao encontro da nossa memória...ou mesmo ao encontro da nossa amnésia...ou ao reconhecimento ou mistura das duas.

Sandra :)

Dito por Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 11h27

Sandra, tu mesma o disseste É preciso saber ir para além das palavras
No entanto acho que ficaste presa numa só de tantas que o Paulo usou ;)
E o Paulo mencionou muitas coisas com que eu me identifico e com que concordo.

Falar sobre um livro, partilhar ideias acorda-nos memórias esquecidas.

Acho que a essência de um livro nunca nos abandona. O que nos transmitiu na altura em que o lemos ficou connosco e eventualmente até nos transformou. Lembre-mo-nos ou não dele, se nos marcou de alguma maneira, se aprendemos algo com ele, a essência estará sempre presente.

Dito por dolphin.s no dia 27 de setembro 2003, às 13h30

Não, não fiquei presa a nada. O que acontece é que pode haver sempre mais do que uma forma de abordar as questões. Com maior ou menor nuance.
Eu também concordo e me identifico com muito do que ele disse.
As nossas palavras podem ir sempre para além das palavras...

Sandra :)

Dito por Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 13h57


Mea Culpa, Sandra ;)

A minha precipitação foi eu ter dito "artigo" - é que quando escrevi não me veio à ideia uma expressão mais correcta (estava com sono, já era tarde ;) ) para identificar o texto que li - mas claro que isto não é um "artigo" - será mais uma dissertação ou ensaio, pela profundidade de pensamento que mostra e, sobretudo, invoca.

Dito por Paulo Silva no dia 28 de setembro 2003, às 15h52

Olá Paulo :)

O texto é um conto do livro "Um Combate e outras histórias" do Patrick Süskind ;)

Dito por dolphin.s no dia 28 de setembro 2003, às 16h25

A primeira história do livro, é soberba..

Um jogo de xadrez, 2 personagens...e "os outros"

Os livros?
Lembro-me de "sorver" Emilio Salgari na adolescência.
Lembro-me que "A insustentável leveza do ser" foi um começo para muita coisa.
O ódio a um livro que não conseguia para de ler (O Mágico - Sommerset Maugham)
A poesia segundo Al Berto..o olhar para o mundo p´ra além da superfície.

A mutação pela leitura.

Dito por Carlos no dia 29 de setembro 2003, às 12h10

Tenho que reler a Insustentável Leveza do Ser...
depois levantam-se sempre as dúvidas - o que é que vou deixar de ler para reler um livro?? eeheheh

O primeiro conto do livro Süskind é fantástico :)))

Dito por dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 12h15