Comentários: TESTEMUNHO SOBRE O QUADRO de A. JOHN

obrigada, pelo privilégio de partilharem comigo estes fragmentos de uma vida e uma obra, que soa e sabe a uma brisa que nos afaga a alma.


Vanda Nunes

Afixado por Vanda Nunes em junho 18, 2004 10:06 AM

O texto de hoje é mais uma achega para a imagem da nossa ilustre violoncelista, imagem que a vai aproximando de nós, na vivacidade do seu semblante expressivo, no seu sentido de camaradagem com outros artistas não músicos, na prática, tão responsável da sua arte.
No texto de ontem, ela própria dá conta de tudo isto, ao exaltar, na sua linguagem simples e clara, eloquente e carregada de afecto, as qualidades humanas e artisticas do pintor Augustus John, que a retratou. É a sociável artista do som admirando o silêncio reverente e a ironia comedida do artista melómano, que caminha, nas pontas dos pés, perante a perfeição que conseguiu criar – como o italiano Fra Angélico ajoelhava perante as belas imagens sacras que o seu pincel ia aperfeiçoando.

Guilhermina Suggia, grande violoncelista e também grande pedagoga e democrata, como aqui já vimos, em 7 de Maio ( “Entrevista de Celso de Carvalho a D. João da Câmara”) procurava que todos tivessem acesso à sua música: preocupava-se com a elevação intelectual e o bem estar de toda a gente. Dos textos que já lemos aqui, podemos, agora, imaginar como se teria ela referido so seu ilustre contemporâneo (se lhe tivessem dado a conhecer então, a ela e a todos nós, os heróicos feitos dele) o diplomata Aristides de Sousa Mendes, que hoje vai ter, finalmente, um concerto de homenagem, a que toda a gente pode assistir, às 21 horas, na Aula Magna (metro: Cidade Universitária).

Nascidos no mesmo ano (1885), ambos foram educados no amor da música, que cada um deles praticou como lhe foi possível; também ambos ficaram mais conhecidos no estrangeiro do que no seu país. Ambos cumpriram escrupulosamente a sua missão, neste mundo; mas recusaram deixar-se amestrar pela mesquinhez, cega e feroz, instalada neste país.
Ambos morreram ignorados, calando o sofrimento físico e moral; também ambos honraram o nome de Portugal. Guilhermina Suggia acabou os seus dias a dar lições para formar músicos portugueses; Aristides de Sousa Mendes deu, em poucos meses de frenética actividade filantrópica, uma enorme e incomparável lição, a todo o Mundo, salvando a vida a milhares e milhares de fugitivos do nazismo que encontrou, na Europa, no verão de 1940. Eram todos pobres, não podiam pagar a heróis profissionais. Ele foi o anjo da guarda que lhes apareceu; mas os carrascos do poder político salazarista que, por aquela desobediência, lhe tiraram todas as possibilidades de ganhar o pão (carta de condução incluída), não lhe aceitaram a desculpa das razões humanitárias – julgavam os outros por si próprios - e acusaram-no de corrupção: a ele que nada aceitou nunca, nem mesmo quando, dos seus ex-protegidos, aqueles que eram judeus já podiam pagar-lhe! E, para cúmulo da crueldade, a quem não acreditasse nesta tese, servia a outra desculpa, também propalada: a de que o cônsul tinha enlouquecido; quem se preocuparia com um pobre louco de aspecto indigente?
O ilustre diplomata ainda teve mais quatro anos de sofrimento do que Guilhermina Suggia.

Que a gloriosa recordação de ambos não mais deixe de nos guiar, e a toda a Humanidade, no exemplo, que nos legaram, de perseverança nos ideais artísticos, humanitários e de probidade!


Afixado por Ana Maria Costa em junho 18, 2004 03:07 PM

Perdoe-me a Sra. D. Ana Maria Costa, mas Guilhermina Suggia não morreu ignorada! Dedicou-se, sim, durante toda a vida a dar lições a uma certa quantidade de alunos escolhidos, mas nunca deixou, até ao fim da vida, de ser uma grande concertista. A par das aulas que dava (a minha mãe teve a sorte de ser uma das suas alunas) não deixava de fazer as suas tournées e de dar concertos, com estrondoso sucesso, por toda a parte. Mesmo pouco tempo antes de morrer estava prevista uma sua tournée pelos Estados Unidos, que teve de cancelar devido à doença. Toda a vida se interessou pela pedagogia, mesmo quando ainda era quase uma adolescente e estudava em Leipzig, dava já aulas a um grupo de alunas para poder pagar a estadia do pai junto dela.
Guilhermina Suggia conservou-se uma verdadeira estrela, mesmo até ao próprio dia da sua morte.
É certo que durante a doença preferiu manter-se isolada na sua casa da Rua da Alegria, apenas com a empregada Clarinda e uma enfermeira que trouxe de Inglaterra, mas foi, penso eu, apenas para poupar sofrimento às pessoas que a estimavam.

Afixado por isabel millet em junho 27, 2004 03:07 AM

De facto Suggia deu o seu último recital em 31 de Maio de 1950 (morreu a 30 de Julho do mesmo ano) no Teatro Aveirense. A imprensa noticiou o seu funeral como um acontecimento de grande manifestação pública.

O esquecimento veio depois. Suggia devia ser sempre lembrada no seu país. Ao menos como é em Inglaterra, seu 2º país de adopção, onde continua a ser lembrada e as suas últimas vontades respeitadas.

Já que assim é, que ao menos aqueles que sabem quem foi Suggia e têm pela sua memória respeito e admiração, façam o que puderem para que seja lembrada.

Afixado por vm em junho 27, 2004 12:13 PM


Concordo plenamente. Acho que devemos fazer tudo para reavivar a sua memória e sobretudo fazer-lhe justiça.
Guilhermina Suggia foi uma mulher plena, que se deu de corpo e alma a tudo e a todos na vida. Foi uma mulher de sentimentos exuberantes e intensos, que esteve muito acima da mesquinhez dos preconceitos da sociedade da época, dos quais subsistem ainda muitos deles, não tenhamos ilusões. Mas ela teve a coragem de se manter liberta. Ou talvez não pudesse ser de outra forma, ela era assim, simplesmente: grande e por isso genuinamente livre de tudo quanto pudesse manietá-la.
É isso o que mais me interessa e admiro nela e aqui fica a minha homenagem no dia 27 de Junho, dia do seu aniversário.

Afixado por isabel millet em junho 27, 2004 08:56 PM

Não tenho dúvidas de que G. Suggia esteve sempre acima da mesquinhez dos preconceitos que, infelizmente muitos ainda hoje existem. Foi uma mulher moderna, muito além do seu tempo. Grande em tudo. Tenho muita pena de não a ter conhecido. É das pessoas que mais admiro, mesmo tendo nascido quando ela morria. Gostava tanto que se fizesse justiça à sua memória.

Afixado por vm em junho 28, 2004 05:16 PM

E vamos fazer, vai ver. Para isso contribui grandemente este blog, que está cada vez melhor. Dou-lhe os meus parabéns por ter tomado esta iniciativa.
Também tenho esperança de que o meu livro contribua para lhe fazer justiça. É com grande paixão que o escrevo e tenciono escrever também uma peça de teatro a partir dele e um guião para cinema. Penso que seria maravilhoso se se fizesse um filme sobre a vida de Guilhermina Suggia.
E existem ainda mil outras coisas que têm de se fazer, como corrigir os nomes dos pais nas placas do cemitério, pôr uma placa na casa da rua da Alegria, e muitas, muitas mais coisas existem ainda para fazer...

Afixado por isabel millet em junho 29, 2004 12:57 AM