Comentários: POSTAL ENVIADO A V. DA MOTTA


Pois, era precisamente a este postal que eu me referia, no comentário anterior. Também o tive nas mãos no museu da música e copiei as palavras, já que não me deixaram tirar fotocópia. Muito obrigada por mostrá-lo np blog, vou imprimi-lo.

Afixado por isabel millet em junho 30, 2004 01:37 AM

Um Postal para Sintra

Eis o nosso Vianna da Motta a passar férias em Sintra, num Setembro de há quase 80 anos.
Quantos grandes vultos da história e da cultura portuguesa escolheram aquela vila para irem a ares e se refrescarem, e quantos estrangeiros ilustres também o fizeram! Se fosse possível colocar placas que os recordassem, a todos, algumas casas ficariam cobertas delas.
Haveria, naquele chalé, algum piano ou algum harmónio de igreja? Onde faria, o nosso grande pianista, o seu treino diário? Não, por certo, no órgão de S. Martinho, que esse já emudecera, ao tempo!
Imaginemo-lo, no velho eléctrico, com as duas filhas, de passeio, à praia das maçãs. Tão relaxante e pachorrenta era aquela viagem que irá, segundo parece, poder passar a ser revivida, por todos nós, embora já sem a paisagem de então.
A nossa Guilhermina Suggia afirmou, neste postal, sentir-se bem, no seu país, onde as atrocidades da ditadura ainda não escandalizavam a maioria, e onde a população vivia na ilusão de uma paz merecida, sem poder adivinhar as dores que a podridão dessa mesma paz haveria de trazer consigo.
Vianna da Motta, de olhos bem abertos, por muitos anos passados na Alemanha, já começava a sentir o mal-estar com que os ódios reaccionários haveriam de destruí-lo. Restavam-lhe, por então, as férias em Sintra; já perto da morte, em 1948, nada calaria o seu desgosto, como podemos verificar na correspondência inserta em “Opúsculos”, de Fernando Lopes Graça, cartas plenas de delicadeza e de nobre humildade.

O pior foi, no entanto, poupado a ambos: os assassínios lentos ou calados, de há 50 anos, do tenebroso ano de 1954, em que – ninguém o soube, nem saberia, até há pouco – duas heróicas figuras portuguesas foram imoladas, para nosso exemplo.
Sob o calor das primeiras colheitas, “uma ceifeira de Portugal”, modesta mas imortalizada nos versos de Zeca Afonso e de Sofia de Melo Breyner, por ter sido “a mulher e não somente a fêmea”, foi a consciência feminina que primeiro ousou mostrar aquilo que já bastava, aqui. Deixou, para nossa vergonha, mais três órfãos, num país onde, naquele momento, estava prestes a terminar o seu longo calvário de privações o ilustre diplomata Aristides de Sousa Mendes. Ele começa agora a ser - mau grado os que nos têm calado ao ponto de ainda ninguém ter sabido cantá-lo, em versos que entrem nos ouvidos de todos - finalmente e graças ao progresso, o nosso grande orgulho.
Duplamente herói, pelas 30 mil vidas que, salvou desinteressadamente, das garras de Hitler, em 1940, tal como pelo seu exemplo de probidade e de coragem, no sofrimento moral e material que logo lhe foi imposto, viu o seu nobre acto castigado com a acusação, totalmente falsa, de corrupção, e com a demissão, - cinicamente disfarçada em reforma, pela qual esperou 14 anos, até à morte - do seu cargo, no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
O cônsul de Portugal, Aristides de Sousa Mendes, proibido de exercer a advocacia, e até de conduzir, levou a sua probidade ao ponto de recusar qualquer auxílio material, de pessoas que salvara. Preferiu acabar na miséria a dar razão àquela repugnante calúnia dos vendidos que o haviam julgado.
Quantos portugueses conseguiriam levar tão longe um exemplo de honestidade como o que nos legou este aristocrata de sangue e, sobretudo, de espírito?

Aqui temos uma das figuras ilustres da nossa história que não passavam férias em Sintra: enquanto as teve, o cônsul passou-as na sua casa – monumento agora em ruínas – em Cabanas de Viriato, nos Montes Hermínios, como ele dizia, com o optimismo e a bonomia que também lhe haviam de ser roubados, ... e, dessa casa, ele acabou por queimar mesmo algumas portas, para não morrer de frio, até o seu cérebro se apagar, cansado de sofrer, há 50 anos.
Eis a gratidão de um país cego pelos preconceitos e pela inveja!

Afixado por Ana Maria Costa em junho 30, 2004 03:09 PM