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«Conversámos. Muito lúcida, a senhora abriu-se comigo, confiadamente, apesar de nunca nos termos visto antes. Em certo instante, inesperadamente, levantou-se, pegou-me na mão e, quase em segredo, disse-me: ‘Venha comigo, quero mostrar-lhe uma coisa.'

Conduziu-me a outra sala, abriu um armário e tirou de dentro uma guitarra portuguesa muito antiga, de pequeno formato, embrulhada, carinhosamente, numa bolsa bordada: ‘Esta era a guitarra de minha querida mãe.'

A senhora tinha os olhos cheios de lágrimas e um ar de profundo recolhimento. Explicou-me que aquela guitarra, onde há anos não mexia, lhe vinha lembrar, vivamente, os padecimentos morais de sua mãe. O pai fora um indivíduo extremamente severo, duro, o único em casa a tomar decisões, nem sempre as mais humanas.

A mulher não se atrevia a contrariá-lo. Transformou-se, assim, ao , longo dos anos, numa presença silenciosa e triste, entre a família. Então, quando o pai não estava, muitas vezes a filha ouviu a mãe cantar baixinho, por entre lágrimas, quadras improvisadas sobre as cordas gementes da guitarra.»

Carlos Paredes ao Jornal de Letras

Dito por rilka no dia 24 de julho 2004, às 16h37

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Dito por miguel no dia 25 de julho 2004, às 01h58

«Um homem tem todas as idades, desde que o mundo existe, desde que a vida surgiu»

Carlos Paredes

Dito por viriato no dia 29 de julho 2004, às 17h21