Comentários: Um céu cinza

"proximidade do grotesco e do sublime, o quão ténue é a sua diferença. assustas-me quando me despertas o instinto do abismo."
Revejo-me nas tuas palavras, Ana, e compreendo-os, doçura, porque é tão dificil de perceber. Podemos nós exigir essa compreensão? Sei lá...
Fiquei muito emocionada com o que escreveste e da forma como o fizeste.
Um carinho Ana

Afixado por sibylla em julho 25, 2004 09:58 PM


Um poema de Hilda Hilst para a comemoração de aniversário do Palavras. Com minha admiração!


Ode XXVIII (Da morte)
Ah, negra cavalinha
Flanco de acácias
Dobra-te para a montaria
Porque me sei pesada
De perguntas, negras favas
Entupindo-me a boca
E no bojo um todo averso
Uns adversos de nojo:
Que rumos? Que calmarias?
Me levas para qual desgosto?
Há luz? Há um deus que me espia?
Vou vê-lo agora montada alma
Sobre as tuas patas? Tem rosto?
Dobra-te mansa
Porque me sei pesada. De vida.
De fundura de poço. E porque
Um poeta não sabe montar a morte
Ainda que seja a minha:
Flanco de acácias.
Negra cavalinha.

Afixado por Carmem de Bizet em julho 27, 2004 05:04 AM

Música com sombras

Porque te vestes de Sombra
é que eu te espero onde os dias morrem para sempre
Escuta É a voz humana
essa areia sufocada em tua garganta: isso a areia
soprada por um vento,
é a coisa que os homens chamam a Voz humana
A nossa voz,
ah
Dela, nada dizer Calar na bruma
Porque tu vestes de sombras
a criança que trazes pela mão,
torturada como um vício, branca como uma virtude
triste
como uma flor presa em sua Raíz
Onde está o colar dos desesperos, ali
puseste os pulsos das manhãs nascentes Nenhum Anjo,
nenhum anjo
Estamos presos no centro,
ou livres caindo no escuro
E eu não sei qual das duas portas, assim abertas, são mais
terríveis são
mais belas
Se
só sei
que te espera
a que virá coberta pela sombra
trazendo pela mão essa criança sem Face, sem rugas
também
sem ter nascido
Se assim escurecesse em silêncio esta paisagem
onde pousamos ausentes para os olhos
dos cegos,
toda Serpente seria caridosa, toso encanto teria nervos
azuis de pedras de fontes
de lamentos não-nascidos do fundo da garganta
nem a tua nem a da menor que tu, a tua criança
que devolves à claridade
com um gesto de amrgura
e recuperas
para o negro dia dos meus olhos
com um gesto de ternura
Ela, a fonte das nossas frontes, pensativamente está
pousada,
observa
Paisagem de deserto, e mão cheia de pó:
um sonho para olhos de vidro sonharem

com torturas
Ela: é a Paisagem: é o lugar, e é o Pranto
do lugar onde os dias morrem
para sempre
Nenhum anjo, nenhum anjo

Não é a voz humana, nem ao menos murmurando

Vicente Franz Cecim

Afixado por Carmem de Bizet em julho 27, 2004 05:11 AM

Servem as vestes desprovidas de alma para iluminar este teu mundo que em tão calma hora vieram iuminar a tua alma.
A tua cor nem sempre demonstra o teu ser, assim oscilas entre o negro e o cinza na esperança de te encontrares. Esse reconhecimento é parte integrante do processo que podemos considerar de finalização de uma vida.
Conde que mágoa é essa que te invade por dentro e que se acumula de uma vontade infame de rebentar para que digas ao mundo que não mas queres sr triste. Conde ... sim tu que anseias pela solidão e ao mesmo tempo por uma felicidade algo longinqua, grita; grita bem alto com o som profundo do teu ser na esperança de te encontrares.
Eu Kan o senhor dos meus súbditos, te digo que a agonia não é caminho para o florescer da alma, mas sim a vontade e o querer sair para fora da obscuridão.

Afixado por KAN em julho 30, 2004 03:21 AM