Ao pedido do CCM de Aveiro para que G. Suggia tivesse em conta um "cachet" razoável dada a difícil situação financeira do CCM, G Suggia terá respondido que não se recorda quanto terá recebido a última vez que tocou para o CCM de Aveiro, mas a situação financeira era a mesma , ela teria feito um "cachet" muito abaixo do que cobrava e portanto seria o mesmo. Eles que vissem quanto lhe teriam pago na altura.
Afixado por vm em julho 29, 2004 02:01 AMNaquele tempo, em que um litro de azeite, do melhor, custava 15$00, uma caixa de fósforos $70, o meu pai, que trabalhava noite e dia, como jornalista, ganhava 3.500$00, em dois empregos, e a mensalidade do colégio de freiras que eu frequentava era de 100$00 - e estava entre as mais elevadas - 10.000$00 seria talvez o ordenado de um administrador de empresa privada que fosse político da "situação". Não admira que Guilhermina Suggia, já habituada a ver todos, à sua volta, ganharem muito menos, se contentasse com um “cachet”, para ela, simbólico – tanto mais que tinha já a certeza de não vir a viver muitos anos. Por outro lado, a inflação era pouco evidente, comparada com o que é hoje.
Bem significativo é a pianista acompanhante receber dez vezes menos, por muito competente que fosse. Ainda em 1964, num número da revista “Arte Musical”, apareceu um anúncio de uma senhora diplomada em piano - com 20 valores – que se oferecia para dar lições, em casa. A minha família não me deixou frequentar o conservatório, dizendo que não queria pagar para eu morrer de fome. Não acreditou que eu conseguisse tirar os dois cursos, como fez Adriano Jordão, que é quase da minha idade. Fiquei frustrada, para o resto da vida, mas compreendo a preocupação de qualquer pai, ao ver a vida que o Salazarismo reservava aos artistas, para os ter amordaçados e submissos. Os que não quisessem rastejar-lhes aos pés e prestar-se a todas as baixezas, teriam a sorte de Lopes Graça, constantemente a ser perseguido e preso.
Voltando a Guilhermina Suggia, não existem sobrinhos ou, pelo menos, primos dela?
Em 1943 um concerto no Tivoli ficava por 7.500$00, incluindo aluguer de sala, direitos de autor, polícia, bombeiros, arrumadores, limpeza, orquestra, maestro, solista (1.000$00 eram para o solista). O elevado custo dum concerto era uma preocupação por causa do preço dos bilhetes.
Em 1942 no Teatro de S Carlos foi o concerto oferecido por Salazar ao Ministro dos Negócios Estrangeiros de Franco. E Salazar quis "dar" o melhor que tínhamos. Suggia cobrou 60.000$oo. Quando António Ferro tentou negociar o cachet Suggia disse que não via razão para baixar. Era o preço que cobrava normalmente e se queriam que ela tocasse era o que teriam que pagar.
Em 1949, a 22 de Outubro dá o último concerto em Inglaterra.
No final do concerto perguntaram-lhe como é que ela se sente (o marido havia morrido em Março desse ano).
" Estou sozinha, sem um único parente no mundo".
Guilhermina sabe que familiarmente não tem ninguém, embora confie em Clarinda e num punhado de amigos .
Afixado por vm em julho 30, 2004 06:25 PM