a: é bom ser-se livre
b: se se tem estrutura p isso
b: tem a ver c a experiência de vida
b: com o tipo de experiência
a: percebi a determinada altura que primeiro teria de aprender a ser livre e depois deveria procurar ter ou usufruir das coisas. Pela ordem contrária é meio caminho para a infelicidade e conflitos
a: é o que eu acho
b: e acho q poderás muito bem ter razão
a: eu, para mim, no meu caso, sei que tenho razão
a: n sei se funciona para os outros
b: mas só existimos em função do outro... não seríamos felizes isolados do mundo
b: o isolamento não funciona bem nesse sentido
b: há sempre algum grau de dependência
a: é verdade. Mas repara numa coisa: qual é o maior desafio de um ser humano? Quanto a mim é reconhecer o Outro. e isso só se obtém sem posse. A dependência é natural do ser humano. A forma de trabalhar dentro de nós a dependência é que é fundamental
b: bem ... só podes reconhecer (diria conhecer) o outro através do conhecimento de ti próprio ... é preciso começar por aí
a: exacto
b: e sim ... é algo que se obtêm sem posse ... a posse distorce a percepção no sentido da preferência do ego
b: Mas isso é lógica budista :)
a: sim. Quem pretende possuir só para si outra pessoa, demonstra tal falta de auto-segurança que me faz pena
b: faz-te pena muita gente
b: há muita gente assim... É preciso compreender as razões inerentes a cada um...
a: o segredo é considerar os relacionamentos que temos, as pessoas que conhecemos e com quem passamos tempo, as coisas que usamos, como uma sorte e, de certa forma, estarmos agradecidos ao destino por, digamos por exemplo, eu poder falar contigo
(…)
a: faz sentido?
b: portanto partes do principio que o destino não te pertence
a: o que é que te pertence da tua vida?
b: Depende do teu nível de apropriação da realidade
a: sim. eu por mim tentei simplificar e tento viver só no presente e aproveitar o mais que possa para aprender e sentir
b: sim
a: o conceito n é complicado. o difícil é largar tudo o que nos foi ensinado desde pequenos
a: acerca da felicidade
b: pois ... tb tem a ver c isso ... desconstruir para reconstruir
b: e com coragem
a: sim. perceber quanto de nós nos foi imposto para que nos controlassem melhor, para que seguíssemos no rebanho, para que déssemos dinheiro a ganhar, para que fossemos o combustível da sociedade, é duro (quanto a mim)
a: e aí entra a sabedoria que, a par com o amor, é o que se deve procurar na vida
b: o mais difícil nem é compreender isso ... o mais difícil é dar o passo de tornar isso em pratica
a: vencer o medo
b: isso
a: é sempre o mais difícil
b: e depois conciliar essa realidade com a q consideramos "nossa"
b: há arestas difíceis
a: sim
a: primeira regra da vida : "A vida é difícil". li uma vez isso e não me esqueci
b: :)
a: e só é difícil porque a nossa realidade, os nossos desejos e ideias, estão sempre a chocar com o mundo e com os outros. Daí que reconhecer o Outro (como igual) facilita muito a vida
b: sim ... mas quando falei em arestas referia-me à sociedade em geral ... à estrutura
b: essa mantem-se sempre ... mesmo podendo reconhecer o outro em ti
a: sim. mas a sociedade é uma tela onde se projecta uma realidade bem menos efectiva do que a que te orienta
b: boa ... e tens toda a razão
a: é o que eu penso e vivo.
a: sabes, assim que percebi isto, a minha vida tornou-se bem mais interessante e desafiante
b: isso já é um nível de apropriação da realidade acima do básico despertar ... depois há implicações
a: sim
(…)
b: tb acho q a partir de certo nível de consciência as palavras tornam-se dispensáveis e pouco eficazes … limitadas
b: até as metáforas têm os seus limites nos limites da experiência do outro
a: sim. mas acredito que as palavras mais 'altas' e 'raras', existam e expliquem esse tipo de conteúdos. mas isso já terá a ver com um cada vez maior grau de, como direi?, Iluminação...
a: (cada vez mais budista, ahn?)