O debate que se gerou em torno deste post revela a polémica e a delicadeza deste assunto.
Saliento, mais uma vez, que o doente deve ser chamado pelo nome pelo qual é conhecido e pelo qual gosta de ser tratado, mesmo que isso implique utilizar um título profissional. «O título que o acompanha (o doente) é naturalmente parte integrante dessa vida, mais do que um mero Dr, Eng, Enf... representa a sua função na sociedade» (Spring). É indiscutível. E, tal como o colega Sérgio Deodato refere: «o nome é, para a nossa ordem jurídica, uma direito de personalidade legalmente protegido, que o enfermeiro tem o dever de respeitar».
No entanto, paralelamente, podemos pensar ou reflectir «na necessidade que algumas pessoas sentem em diferenciar-se através do titulo profissional» (pedrojosesilva).
Quanto à forma como as pessoas de quem cuidamos se dirigem a nós, enfermeiros, só posso falar pessoalmente. Não me choca que se dirijam a mim pelo nome pelo qual sou conhecida e sem o título profissional. A minha prática tem demonstrado que isso decorre duma relação terapêutica baseada na empatia e no respeito.
Sr. dr. deixe-me por um penny-rose no seu engenheiro!!!! Por favor!!!
Afixado por Nurseman em novembro 21, 2004 11:28 PMSpring, sim sou enfermeiro, discuto isto aqui porque estamos entre colegas...
Mais uma coisa spring... vá dormir, sim?
Eu concordo com o princípio de que cada pessoa, independentemente do contexto em que se encontre, deve ser chamada pelo nome que gosta de ser chamada.
Mas, porquê este princpio? Qual a razão de ser que lhe está subjacente? Provavelmente, o facto do nome identificar uma pessoa perante os outros.É uma forma, entre outras, de cada pessoa se relacionar com os outros. O nome faz parte de si, é inerente a si, inclui-se na sua dignidade.A dignidade de cada um, se quisermos a expressão muitas vezes repetida, a dignidade da pessoa humana, também abrange o nome. De tal forma que o nome é, para a nossa ordem jurídica, uma direito de personalidade legalmente protegido, que o enfermeiro tem o dever de respeitar.
Ora, da mesma maneira que o nome nos identifica, também o título pelo qual somos conhecidos, é um elemento que traduz o nosso papel social, atavés do qual somos reconhecidos pelos outros.
E é um elemento de identificação que vem "agarrado" ao nosso nome.
Será legítimo, no momento em que entramos no hospital, retirarem esse elemento de identificação que precede o nosso nome. Haverá alguma razão para, numa altura de maior vulnerabilidade, sermos despojados de uma parte do nosso nome, ainda por cima à luz de um princípio de que pretendem chamar-nos pelo nome que mais gostamos de ser chamados?
Parece que o que se pretende é chamar pelo nome que se gosta de ser chamado, mas retirando-lhe
aquilo que não gostamos ou queremos chamar. Não parece incoerente?
E nós? Nesta lógica também convidamos as pessoas de quem cuidamos e os outros profissionais com quem trabalhamos para nos chamarem o nome que mais gostamos, SEM TÍTULO PROFISSIONAL?
Não será preconceito, apenas?
Depois do post anterior só me ocorre um comentário: que triste é ler estas palavras escritas por um/a enfermeiro/a (!?), sobre pessoas, no caso enfermeiros, que nos merecem todo o respeito, independentemente de concordarmos ou não com os seus métodos ou teorias. Além disso, generalizar o "ódio" pelas professoras que são todas uma "tolas varridas" parece-me mais do que desapropriado e mesmo ofensivo para todos nós. Nas nossas palavras e actos reside aquilo que somos...
Afixado por Spring em novembro 15, 2004 01:57 PMLembro-me dessas teorias tolas das professoras de enfermagem, em querer que utilizassemos o títulos quando nos dirigíamos ao doente... claro que as professoras de enfermagem mais antigas não passam de umas tolas varridas, sem cultura que toda a gente odeia... embora parece que são as únicas no mundo que ainda não se aperceberam de tal situação... que enfezadas!!!
Afixado por En?gma em novembro 13, 2004 11:22 PMIsto faz-me pensar! Tudo o que os enfermeiros fazem quando um doente está no hospital, é tentar não quebrar os seus elos de ligação com a Vida (não apenas vida corporea, mas todas as circunstancias que a rodeiam), e o titulo que o acompanha é naturalmente parte integrante dessa vida, mais do que um mero Dr, Eng, Enf... representa a sua função na sociedade. Como se não bastasse já, ser despido das suas roupas, separado da familia e amigos... Acho ainda, sem inavalidar o que disse anteriormente, que devemos estar atentos aos outros doentes, porque se podem sentir com menos atenções por serem apenas o Sr. José. Já agora porque não partilhar isso mesmo com os Drs, Engs, Enfs, que temos internados nos nossos hospitais, quando achamos que podemos estar a perturbar os outros doentes?
Afixado por Spring em novembro 1, 2004 12:28 PMIsto dava pano para mangas. O Portugal de hoje é uma feira de vaidades em desfile, uma mascarada pegada com Drs. e Engºs, para a esquerda e para a direita. Até os bachareis querem ser assim tratados.
Nos anúncios necrológicos~, então é um nojo:
" Sr. Dr. Zé dos Azóis de Tito Cunha e Menezes, vinte anos de profunda Saudade..."
Hoje já nem há operários ou serventes, foram substituídos pelo termo "Técnico X".
Penso que é urgente reparar a mioleira humana porque avariou de vez.
Um abraçao do
Zecatelhado
A minha sensibilidade aproxima-se daquela que a Cris expressou. Contudo por vezes faço essa distinção quando noto que isso está a fazer diferença para o doente. já tive um caso de um juiz, que começou a ficar deprimido por causa da questão da "perda de estatuto" dentro do Hospital. Disse ele, lá fora todos me tratam por Sr. Doutor Juiz. Passei a chama-lo assim...claro que me faz pensar na necessidade que algumas pessoas sentem em diferenciar-se através do titulo profissional. estamos longe de uma sociedade igualitaria.
Afixado por pedrojosesilva em outubro 28, 2004 06:46 PMPenso que quanto às questões que coloca, não há dúvidas. O importante é centrarmo-nos no doente alvo dos nossos cuidados. Se o doente for conhecido de certa forma e gostar de ser tratado assim, a sua vontade deve ser respeitada, obviamente.
Conto-lhe um caso que se passou com o meu pai há vários anos. Nessa altura o meu pai estava ventilado e os médicos insistiam em tratá-lo pelo 1º nome, coisa que nunca aconteceu ao longo da vida dele. A determinado momento pediu algo para escrever e disse: «chamo-me SANTOS e tenho muita sede». Os médicos pediram desculpa por não darem importância à forma como o doente costuma (e gosta) de ser tratado e guardaram o pedaço de papel para lembrar e evitar que tal episódio se repetisse.
Três comentários apenas:
1 - Chamar alguém pelo nome que ele/ela gosta de ser tratado pode passar pelo título, grau ou designação profissional - há-de variar com o caso, ous eja, com as pessoas, não?!;
2 - quanto aos «outros» doentes, é uma questão de reparar como «eles» se tratam entre si, como se chamam uns aos outros... Pode até vir a dar ideia que os «doentes-vizinhos» se respeitam mais do que parece (e dos que os profissionais pensam).
3 - Se eu tratar alguém de uma certa forma - por exemplo, um médico do serviço - e essa pessoa fôr internada no «meu» serviço, como me dirijo a ela, que é a mesma pessoa, num contexto diferente?
Finalizando, lembro-me de uma carta de um conhecido clínico (já falecido)em que agradecia os cuidados, o atendimento, etc, e o único reparo era ter voltado a ser chamado, depois de mais de 30 anos, «Sr. Manuel».
Isto faz-me lembrar a piada da recepção, em que a recepcionista pergunta:
- Doutor é primeiro nome ??
Beijinhos e boa semana de trabalho.
Afixado por João em outubro 25, 2004 08:55 AM