Comentários: "Farpas", 2004

Excelente livro para se compreender o Portugal que temos hoje - e o que podemos (devemos) fazer para tentar mudá-lo, dentro das nossas modestas possibilidades... Também vale a pena ler o texto que António Guerreiro escreveu, a propósito, no Expresso há umas semanas atrás. Na sequência da afirmação de JGil de que Portugal é hoje o país da "não-inscrição", diz AGuerreiro: [Portugal é um país em] “que nada acontece na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico”. Isto é: tudo é atraído para uma espécie de “sombra branca”, antes de produzir qualquer efeito sobre o real. O “nada acontece” significa que os efeitos são rasurados e tudo se dispersa numa matéria inerte. (…) a não-inscrição, tal como ela é aqui definida, é muito mais do que um problema de memória. É uma inércia que faz com que nada produza impacto, que remete para uma espécie de anestesia a recepção de obras literárias, artísticas ou de pensamento. Tudo vai parar ao mesmo buraco, ao mesmo plano de invisibilidade, sem aceder ao nível da consciência, da reelaboração, da discussão.” Sobre a ausência de um verdadeiro espaço público e a sua substituição por um simulacro: “ (…) simulacro que é o espaço mediático, hipertrofiado, reproduzindo caricaturalmente a ausência de debate, de troca livre de ideias. (…) o fechamento do nosso espaço público retira efectualidade à cultura e reduz, em todos os domínios da socialização, o espaço crítico. (…) Portugal é uma sociedade normalizada, onde o horizonte dos possíveis é extremamente pobre, e onde a prática democrática encontra resistências ao aprofundamento.”
Food for thought, sem dúvida!

Afixado por DK em janeiro 11, 2005 06:11 PM