Gosto, como sempre, desse teu modo de exprimir e guardar as emoções contidas.Não sei mesmo bem porquê, mas de repente lembrei o modo peculiar ( e bem difernte no tom) de conter emoções de Drummond, no Poema das Sete faces:
(...)
Mundo, mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução
Eu não devia dizer isto a você
mas esta lua, este conhaque
botam a gente comovido como o diabo
...contendo a emoção e disfarçando-a no final...
A vida é feita de pequenas mortes, folhas que caem e outras que despontam. Cada dia, a luz despede-se dos nossos olhos, mas nós deixamos sempre as pálpebras prontas a abrir. É preciso responder aos silêncios que descem na tarde às bocas da noite.O tempo morde-nos na face. Sente-se. Mas seria bom trazermos connosco a ansiedade de tudo viver e nada deixarmos para o momento em que partirmos.
É esta a minha resposta ao teu belo mas taciturno poema. Não me leves a mal mas tenho que dizer que vida há só uma e o facto de nós nascermos foi uma lotaria entre biliões e biliões de chances.
"Ancorar o olhar". Na tarde. No silêncio.
No olhar de uma mulher a lua não adormece...
Um beijo Soledade.
Gostei muito.
Afixado por Fernando Dinis em outubro 8, 2007 05:48 PMnão sei se essa se essa a solidão, se essa paz é possível
Afixado por Mississipi em outubro 8, 2007 06:10 PMIa dizer uma coisa triste mas para isso está cá a minha amiga que o diz muito bem. Mas está tão "simples" este Propósito que até parece ser mesmo simples adormecer e esquecer o cansaço e amargura do que está ali nos três últimos versos...
Surpreende-me e talvez não, entristece-me este poema porque me faz matutar na fatalidade, na inutilidade de algumas coisas.
O poeta é um fingidor, mas também não é preciso fingir tão bem, não é :)
Pronto, vou reler o poema do Drummond mas caramba, nem gosto de conhaque!
Beijos
parece-me uma bela anamorfose de Caeiro, onde o "enfim" é uma navalha de Buñuel que corta até o olhar...
Afixado por cxara em outubro 8, 2007 11:20 PMAmélia, gostei que lembrasses o "Poema das Sete Faces". Se há poema que nos dá um beliscão bem forte e traz de volta ao "real", é esse. Adoro a estrofe final.
Beijo
Carlos, isto que escreves é tão bonito: "É preciso responder aos silêncios que descem na tarde às bocas da noite. O tempo morde-nos na face." Um poema pode nascer daqui. Será que nasceu? Onde?...
Quanto ao mais que dizes, concordo que a vida é infinitamente preciosa e o tempo uma experiência estranha. "Morde-nos a face" e ensaiamos formas de duração. Paradoxalmente, a desistência pode ser uma delas.
Um abraço
Graça, às vezes nada é mais reconfortante que a afirmação de uma cumplicidade restrita às mulheres. Obrigada :)
Um beijo
Fernando, obrigada. Também por me dares a conhecer o teu espaço. Gostei de entrar no "Fico até Tarde neste Mundo".
Afixado por soledade em outubro 9, 2007 06:51 PMNão é possível, acho, excepto em Ricardo Reis. Uma construção, portanto. Daniel, devia calcular que você iria traçar a linha recta entre a solidão e a paz, o anseio e a impossibilidade. Já nos lemos há muitos anos, nós.
Um beijo
Ana, c'est pas grave. E vai gostar do conhaque do Drummond :) Deixo-lhe um beijo, um sorriso e uns versos de uma canção que bem conhece:
«Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre»
cxara, fiquei surpreendida com a tua observação porque acertaste em cheio num objectivo que procurei em tempos: poemas vazios de imagens, o discurso poético no limite da exiguidade, uma quase anti-poesia, como Caeiro, mas no extremo oposto: o meu mundo sem espessura é o da inquietude. Reuni vários desses poemas e dei-lhes o título de "Os Dias Planos". Este poderia entrar nesse conjunto.
Obrigada pelo comentário.
Um abraço daqui :)
Fico contente por isso, António.
Saudades!
Um abraço
Fui em busca dos Dias Planos, não como o outro, por causa do cheiro das madalenas, mas pela cintilação da voz, ou do dizer.
Este nocturno chegou-me tarde, que se detenha a madrugada.
Ainda bem que passei, animada vai a conversa nos esconsos do blogue.
Também não sei bem porquê, fui pela Natália Correia (aqui e noutros sítios menos contida...):
O meu navio é habitar no vento
Como um castelo que que não se vê por fora.
É um interior de pássaro ao relento,
Um morar sem saber onde se mora.
(Do poema "Passaporte")
Beijos
Afixado por zef em outubro 10, 2007 12:21 AMNão sei quanto tempo se manterá este nocturno, cxara. Sempre que o julgo esgotado e me preparo para lhe pôr fim, chega alguém ou alguma coisa que me detém.
Afixado por soledade em outubro 10, 2007 04:50 PMEsqueço-me da Natália, Zef. E não devia. Obrigada.
Lembranças para Pasárgada.
Por aqui passo depois de muito correr, desejando um desses "dias planos", esse procurar dum sítio para o apetecido adormecer onde, parada, esqueça o cansaço de pensar e sentir - sem luas que passam... Mas surge a tal nostalgia de que fala a Ana, o sentir a inutilidade, a brevidade das coisas vividas. Mas a fatalidade da mulher é voltar a levantar a cabeça e sacudir esse dia pasmado sem sentido e sem vontade, pela simplicidade do gesto de uma criança que, pela nossa mão, descobre que uma folha seca que cai, é uma novidade, e a agarra, trazendo-a para casa, para com ela nos pedir para construir vida : um desenho para dar aos Pais... não é fábula: aconteceu-me ontem à tarde, num momento dum "dia plano" num sítio onde tinha adormecido sem poemas nem luas...
Obrigada, Sol, e desculpe o espaço e o tempo que tomei, mas acredito que compreendeu como gostei de ler, hoje, o seu poema.
As palavras têm uma face iluminada e outra escura como a lua. Concordo. Nós podemos optar pela desistência, mas o restolho(lembras-te?) permanece. Isso levou-me certo dia a escrever desta forma simples:
Tremo e nem sei bem porquê/em cada vitória ainda que pequena/Talvez fique a pensar que algures/num canto qualquer o amor vive/e as humildes alegrias não são só/esses quotidianos arranjos comuns/E sinto abrir um pequeno espaço/que ainda alimenta a minha fome/desse paraíso distante e esquecido/do qual ainda recebo mensagens.(2007/08/28)
Fernanda, um dia este blogue termina. Posso guardar os arquivos, mas não os comentários. Vou ter muita pena de perder a troca que vai correndo nos "esconsos", como diz a L. A Fernanda não *ocupa* espaço. As suas palavras, como as dos outros amigos, são sempre bem vindas e enriquecem este lugar e dão-me que pensar e às vezes comovem-me ou fazem-me sorrir. Adorei a história da criança que descobre a novidade do mundo pela mão da avó, numa folha de outono. Que a sorte proteja as nossas crianças!
Um beijo
Lembro-me do restolho. E de paraísos perdidos também. E gostava de saber onde poderei ler os teus poemas, Carlos.
Bom fim de semana :)