Comentários: CIDADE SUJA

SOBRE ESTE ASSUNTO VEJAM ESTE POST DE EDUARDO PITTA NO da literatura http://daliteratura.blogspot.com/2005/06/lisboa-saque.html

"LISBOA A SAQUE
A disputa eleitoral por Lisboa não augura nada de bom. Tendo o PS «tolerado» a pior solução possível, o corolário parece ser o desastre. Lisboa está a cair aos bocados, cada vez mais suja e labrega, entregue à voragem dos patos-bravos, completamente alheada da progressiva desertificação do centro histórico. Sobreviver em Lisboa tornou-se um acto de fé, cada vez mais problemático, porque dois terços da população motorizada tem comportamento delinquente ao volante. Sendo uma cidade «pequena», pequena como Bruxelas, Dublim ou Amesterdão, Lisboa tem todos os problemas, e nenhuma das vantagens das grandes cidades. O censo de 2001 fixa a população residente no concelho em 556 797 habitantes, menos 16% do que em 1991 (muito menos do que, por ex., em 1930). A «fuga» não tem sido por acaso. Mas Lisboa não é só a população residente no concelho. Lisboa é o epicentro caótico de uma área metropolitana com 2 662 949 habitantes. Significa isso que, todos os dias, durante grande parte do dia, nunca menos de dez em cada 24 horas, acresce à população residente um número que podemos situar entre 1,4 ou 1,5 milhões de pessoas. Aquelas que residem num dos 18 concelhos limítrofes, mas estudam, ou trabalham ou especulam em Lisboa. Todos juntos, os residentes e «os outros», a população flutuante da cidade roça os dois milhões de habitantes. De segunda a sexta-feira há um «pico» diário (11-19h) em que toda essa gente, ao mesmo tempo, entope tudo. Uma Câmara responsável tem de saber encontrar «soluções» adequadas. O que me parece é que os anseios e necessidades de dois milhões de pessoas são muita areia para a camioneta de Carrilho. É verdade que 70% dessas pessoas vai dormir a Sintra, a Loures, à Amadora, a Cascais, a Oeiras, a Almada. Pois vai. Mas é em Lisboa que sofre a selva do trânsito, a poluição atmosférica e sonora, os equipamentos degradados, a pesporrência camarária. Não é preciso sair dos bairros burgueses (os situados a ocidente: Estrela, Lapa, Campo de Ourique; e a oriente: Avenidas Novas, Alvalade, Campo Grande) para verificar que não existe a mais remota coincidência civilizacional entre esses bairros e os seus equivalentes em qualquer cidade europeia (Madrid, Paris, Londres). Do lado da actual gestão camarária, o imbróglio não surpreende. No dia em que tornou pública a sua candidatura, o engenheiro Carmona manifestou o desejo de manter o bairro onde vive como exemplo de «segurança, tranquilidade e limpeza». O candidato do PSD é praticamente meu vizinho. Em matéria de segurança (relativa) e tranquilidade (efectiva), nada a opor. Mas no tocante a limpeza, só por brincadeira. Compreendo que os vidros fumados das viaturas oficiais obnubilem a crua realidade, mas convém não abusar. Ora é contra este tipo de leviandade que é preciso votar. Infelizmente, a alternativa do PS pauta-se por idêntica leviandade. Em entrevista recente, perguntado sobre medidas para obviar ao estacionamento desregrado, Carrilho disse que as pessoas aprendiam no dia em que tivessem de pagar «milhares de euros» de multa. Não vale a pena comentar. Um abrégé dos 38 760 caracteres vem publicado na Crónica Feminina do passado dia 25. O argumento de que Carrilho, enquanto ministro da Cultura, terá contribuído para a «internacionalização da arte e da literatura portuguesas» (um dos argumentos de Inês Pedrosa), não colhe. Mesmo que fosse verdade, o que é que isso tem a ver com os problemas concretos de Lisboa? E que espécie de «internacionalização» é essa que se restringe a Badajoz e a uma livraria do Quartier Latin? O facto, e contra factos os argumentos pouco podem, é que se alguém entrar numa livraria inglesa, chinesa, italiana, argentina, checa, sul-africana, austríaca, canadense, indiana, dinamarquesa, neozelandesa, norueguesa, chilena, russa, americana, grega, marroquina, belga, australiana, irlandesa, japonesa, alemã, egípcia, sueca, cubana, holandesa, nigeriana, suíça, mexicana, turca, etc., por muito que procure, não encontra nenhum livro de nenhum dos tais autores que Carrilho «internacionalizou». Na melhor das hipóteses encontrará traduções de Pessoa, Saramago e Lobo Antunes. Acontece que nenhum dos três precisou de Carrilho para nada. Pois se um inglês culto não sabe quem sejam Herberto ou Agustina, Cesariny ou Sophia, Vergílio Ferreira ou Pedro Paixão, se Maria Velho da Costa continua inédita em França, se nos Estados Unidos ninguém faz a mínima ideia de quem sejam Ramos Rosa, Cardoso Pires, Ruy Belo, Fiama ou Luiza Neto Jorge, e se mesmo em Espanha os grandes editores continuam refractários à literatura portuguesa (exceptuado o trio maravilha), que raio de «internacionalização» foi essa? Dizer que se pretende uma «cidade solidária, competitiva e cosmopolita», sem explicar a dimensão dessa solidariedade, dessa competitividade e desse cosmopolitismo, não leva a lado nenhum. Nem de taxi-boat lá vamos."

posted by Eduardo Pitta at 3:19 AM

Afixado por Gonçalo Cristovão em junho 30, 2005 06:11 PM