Comentários: Destinos Voláteis

muito bonito. A escrita do conde é simplesmente magnifica!

Afixado por vampirella em julho 29, 2005 01:40 PM

Será Évora?? :P
[[]]

Afixado por Dawn em julho 30, 2005 07:46 PM

simplesmente genial...
gostei muito do que li!!

Afixado por osimachina em julho 30, 2005 07:54 PM

Último epitáfio

Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada. É certo que se apaixonou por um poeta depois de este ter morrido, que o visitava no cemitério diariamente e levava dálias e zínias para ele, que lhe recitava Apollinaire, que por vezes até pernoitava na companhia de um gato junto da campa do seu amado,segundo as palavras do jardineiro, e pintava os lábios do negro mais negro antevendo prazeres descritos num livro .Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e fosse uma rapariga simples igual às outras raparigas introvertidas da aldeia com o olhar recortado e as sobrancelhas enfraquecidas pela tempo. Pouco se sabe do seu passado e o facto de permancer calada durante muito tempo a observar sozinha as depressões da paisagem,quando não trincava trigo maduro, fosse só uma maneira de esquecer o presente demasiado frívolo para quem consegue iludir o Tempo . Talvez ela no seu mutismo não escondesse nada e o enigma que crescia à sua volta fosse apenas uma diversão dos aldeões entediados com o calor forte dos dias e as noites minguadas sem o uivo dos lobos como sucedia. Talvez ela tivesse sido cantora noutra aldeia antes, ganho a atenção de muitos jovens dispostos aos mais incomuns sacrifícios de amor e hoje sofria na pele a rejeição da sua voz débil,de tom masculino fustigada pelos ventos áridos do Sul e procurasse com palavras seladas vingar o desgosto que não teve .Talvez...

Afixado por Paulo Eduardo em agosto 1, 2005 12:19 AM

Rosas negras

Os meus avós eram tristes, a mãe era uma triste, o meu pai triste era, os meus três irmãos todos tristes também. Fiquei só eu a tomar conta da funerária. O número de clientes no último mês desceu a um ritmo assustador. Compreendo-os. Dantes a minha família era responsável por um atendimento professional. Tínhamos também um grande cão preto no estabelecimento que entretanto morreu de causas desconhecidas. Suspeito que se suicidou ao asfixiar-se na maçaneta da porta de entrada. O cão era uma companhia simpática para nós e para as pessoas que nos visitavam naquela altura da vida. Ninguém mais passou por cá desde então. Sem saber porquê herdei este negócio para o qual não fui talhado. Arruinei o nome da empresa e sinto-me culpado por isso. O que quis sempre ser era jardineiro. Quando era pequeno havia um roseiral perto de casa. De vez a vez costumava entreter-me com as rosas, tocava nelas, cheirava-as, falava-lhes e parecia que me entendiam. Quando me vinha embora de lá regressava comovido e chorava muito como uma criança que perde o brinquedo predilecto ou leva uma bofetada injustificada. Depois chegava a casa e diziam-me: ao menos se brincasses com machados cortavas-te apenas. Eu próprio vou deixar de ser cliente da minha funerária. Já marquei tudo com outra agência: data, preço, local de enterro. Só não sei ainda é como é que vou morrer.

Afixado por Paulo Eduardo em agosto 1, 2005 12:20 AM

Isso não será de José Luís Peixoto?

Afixado por Miguel Cristóvão em agosto 27, 2005 12:20 AM