Comentários: SUGGIA NO CD de JOSÉ PEREIRA DE SOUSA

Desconheço os contornos exactos da coisa, mas não deixo de me interrogar sobre a forma como o violoncelo foi parar às mãos de José Pereira de Sousa. Não suspeito, apenas questiono! Mas suspeito que o que se tem passado não é exactamente aquilo que Suggia tinha em mente...

Saudações,

HVA

Afixado por HVA em outubro 19, 2005 08:36 AM

É verdade que o facto de o violoncelo ser tocado é um dado muito positivo e que é de louvar. O Montagnana é um instrumento que deve ser tocado por violoncelistas que provem - quer pelo seu talento, experiência, garantias de zelo - que o merecem tocar. É o caso. Espero que outros violoncelistas o possam tocar também se assim o entenderem. Pelo que foi dito pela Directora do Museu Romântico, onde ao que parece e, segundo dados divulgados pela Câmara Municipal do POrto, o violoncelo se encontra exposto, qualquer violoncelista pode requisitar o uso do Montagnana aos Serviços culturais da CMPorto. O pedido deverá ser devidamento justificado e será apreciado pelas entidades da CMP.

Quanto ao ser ou não cumprido o que Guilhermina Suggia determinou em testamento, infelizmente nada está a ser cumprido. Aqui deixo a transcrição de parte do documento que regista a vontade de Suggia:

" Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:
Sou Católica Apostólica Romana e, como tal, quero que o meu enterro se realize em obediência ao que manda a Santa Madre Igreja O meu corpo deverá ser sepultado no Cemitério de Agramonte, desta cidade, onde repousam as cinzas de meus pais e meu marido.
Quanto aos bens que possuo e existam à data da minha morte, são eles assim distribuídos:

-O meu violoncelo “Stradivarius” juntamente com dois arcos, um “Tourte” e outro “Voirin”, que se encontram na posse da Embaixada Inglesa em Lisboa, será enviado pelo nosso Embaixador à casa Hills de Londres, a fim de ser por ela adquirido ou vendido pelo melhor preço que se obtenha e o seu produto entregue à “Royal Academy of Music”, que o aplicará, segundo o melhor critério, por forma que o rendimento daí obtido se destine à criação de um prémio denominado “Guilhermina Suggia”, a atribuir, anualmente, ao melhor aluno de violoncelo,

-Possuo outro violoncelo, “Montagnana”, que igualmente será vendido pelo melhor preço, quantia essa que lego ao Conservatório de Música do Porto – através da Câmara Municipal do Porto, se o dito Conservatório continuar a pertencer-lhe, ou do Estado, se porventura ele passar a ser nacional – a fim de, com o rendimento deste legado, se instituir, também, um prémio designado “Guilhermina Suggia”, a atribuir, em cada ano, ao melhor aluno de violoncelo do referido Conservatório. Nesta venda será dada preferência à Senhora Dona Maria Alice Ferreira, filha do Senhor Delfim Ferreira, morador na Rua Dom João Quarto, duzentos e trinta e nove, desta cidade, se esta, na devida altura, pretender adquiri-lo.
Lego, ainda, ao mesmo Conservatório, a minha biblioteca musical – material de orquestra e literatura de violoncelo -, objectos esses a que será dada instalação condigna, para que, dessa forma, o culto, que eu toda a minha vida dediquei à arte musical, perdure e sirva de incentivo a todos – Mestres e Discípulos – que à Arte se dedicam.
..."


Na verdade a Câmara da altura não só não vendeu o violoncelo, como não legou ao estado aquando da passagem do Conservatório para a tutela do Ministério da Educação, o valor para que o prémio fosse instituído.

À semelhança do que se fez em Londres seria necessário alterar o regulamento da atribuição do prémio. Em 1950 o Conservatório era a única Escola de Música do POrto. Hoje existem outras.

Mas que se cumpra a vontade de Suggia. Que se dê bom uso do Montagnana, do espólio Musical deixado e que haja uma Câmara que determine o cumprimento da vontade de Suggia. E que o Estado cumpra também a sua missão.

Afixado por vm em outubro 19, 2005 11:03 AM

Caro Virgílio,

Obrigado pela clara explicação. Faço igualmente votos para que se sigam indicações de Guilhermina Suggia.

Saudações, HVA.

Afixado por HVA em outubro 19, 2005 10:29 PM

Se o Montagnana valesse 550 contos tudo seria simplificado. Mas o Montagnana vale um bocado - um bom bocado mais! E é tomado como um tesouro e não como um instrumento que deve ser tocado. É preciosíssimo e importante que dele se faça bom uso. Que não se volte ao passado que esteve guardado em caves cheias de humidade, chegando mesmo a ficar com bolor. Esteve também fechado num cofre-forte no Museu Soares dos Reis. É, no mínimo criminoso.

Pobre Suggia que tão mal tratada tem sido pela terra que a viu nascer e que ela tanto honrou.

Afixado por vm em outubro 19, 2005 10:41 PM

Gostaria de referir que a fotografia que consta no CD, foi tirada pelo meu avô, Alberto Carlos de Carvalho Cerqueira, nada tendo a ver com Elliott & Fry Ltd. como aí vem indicado.

Afixado por Isabel Millet em outubro 20, 2005 01:55 AM

Queria apenas dizer que a fotografia que consta deste CD foi tirada pelo meu avô, Alberto Carlos de Carvalho Cerqueira, que várias vezes fotografou Guilhermina Suggia. Nada tem a ver com Elliott & Fry Ltd., a não ser o facto de eles possuírem a fotografia, que não foi por eles tirada.

Isabel Millet

Afixado por isabel millet em outubro 20, 2005 04:39 PM

A verdade é que o Montagnana agora está em melhores condiçoes do que quando estava fechado. Os instrumentos de corda melhoram o seu som com o tempo, ao contrário dos de sopro (metais) que quanto mais novos melhor.
Sei por fonte directa que o Montagnana, pelas condições onde se encontrava e pelo simples facto de não ser tocado, estava simplesmente a ficar sem som. Felizmente ele está agora a ser tocado, e por um viloncelista que justifica amplamente o uso. Alias vai ficar mais uns tempos até porque faltam as suites IV, V e VI, que estão em estudo. Esperemos que o Montagnana continue a ser usado.
A vontade de Suggia não está a ser seguida, mas neste momento acho que está a ser seguida a sua intenção: que o instrumento seja tocado. O instrumento neste momento tem um valor (quase) incalculavel, mas não pode deixar de ser tocado, o que se calhar passa por o vender (finalmente ser criado o prémio - raios partam a inercia deste país), ou então criar o prémio em que Montagnana seja utilizado pelo premiado. Pelo seu valor histórico e sonoro este instrumento não pode morrer.
Isabel Millet: acho que é caso para não só referir, mas também averiguar já que provavelmente a Elliott & Fry Ltd. está a tirar lucros pela venda da imagem. O que é realmente triste se nem sequer o nome do autor aparece.

Afixado por joaquim madeira em outubro 30, 2005 07:54 AM

Que fique claro que não contestei nunca o uso o do Montagnana. Muito pelo contrário. Espero que ele seja utilizado - e bem! - Várias vezes aqui tenho referido a falta de uso do Montagnana dando até como exemplo o Stradivarius que Suggia deixou em condições semelhantes à Royal Academy of Music, de Londres, e que nunca deixou de ser tocado. O Montagnana por inércia, incompetência ou ignorância de vários elencos camarários ao longo destes 55 anos chegou a estar nas piores condições: esteve em caves sem condições de armazenamento chegando a estar coberto de bolor. Esteve em Cofres fortes. Que seja tocado, evidentemente! E por quer tiver provas de que pode usar um instrumento desta importância.

Suggia foi uma mulher muito inteligente e com um sentido muito prático do uso das coisas: Deixou tudo para ser usado e ao serviço de estudantes e professores. Quando eu disse aqui que o fim do violoncelo não estava a ser cumprido tinha apenas a ver com a falta de atribuição dos prémios. O que foi escrito por mão de Suggia é bem claro. É uma falta que urge remediar. Defender a sua memória é também fazer cumprir a sua vontade. E Esperemos que haja vontade e lucidez para tal.
Mas que o violoncelo esteja ao serviço de grandes violoncelistas, como é o caso do José Augusto Pereira de Sousa. Isso é, sem dúvida de louvar.

Afixado por vm em outubro 30, 2005 09:10 AM
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