Comentários: Escolas do Paraíso

...não é isso que vimos dizendo?Acertou em cheio a Alzira Seixo.Nós e Steiner também.Apetecia-me mandar este texto à nossasuper-ministra...que, azafamada a mexer em tudo, não deve ter tido tempo para ler...

Afixado por amelia em março 5, 2006 11:39 AM

O ministério anda muito azafamado com a sua «ficção de uma acção cultural empenhada» - e o que é preciso é manter essa ficção, com o beneplácito ou a cumplicidade da comunicação social, pelo que nunca conseguiremos que a opinião pública entenda o que de facto se passa. Além disso divide-se, para melhor reinar, professores, alunos e pais - que nem sequer se dão conta do que estão a fazer-lhes aos filhos.
Não adianta. Ponho aqui estes textos para desabafar, que ilusões não me restam nenhumas.

Afixado por Soledade em março 5, 2006 01:21 PM

estamos todos desiludidos...

Afixado por emn em março 5, 2006 03:05 PM

Concordo com muitas coisas do texto, sobretudo com a ideia que a literatura tem funções de facto ´práticas`, que desenvolve competências que nos tornam melhor cidadãos e até ´mais produtivos`. Portanto sim aos estudos cientifico-literários, embora eu não perceba porque é que o Externato da Benedita, não contemple essa via a partir dos décimos!!
Quanto ao suposto mal de que enferma o ensino, concepções pedagógicas facilitadoras, o desinvestimento na área dos clássicos, etc., etc., esse discurso é tão redutor, tão redutor, que só se percebe num contexto de corporativismo.
Eu sou professor de Educação Física, e agora podia dizer, em primeiro lugar está a saúde, e como a única, ou das únicas disciplinas dos curriculos dos alunos, que investe e capitaliza saúde é a Educação Física, portanto, nós, em primeiro!
Mas também há as outras áreas, a Arte, reivindica também uma maneira própria de ler, e por conseguinte de desenvolver o cidadão. Etc., etc.
Em relação a outros argumentos, por exemplo, a invocação de Salazar, nem acho que mereça resposta. A esta hora ainda estávamos nos 60 ou 70% de analfabetos!!

Bom, mas eu gosto de literatura e acho que pode ser feito mais qualquer coisita.

PCosta

Afixado por Paulo Costa em março 5, 2006 05:56 PM

Paulo, não percebeste o texto. Mas hoje não estou com pendor pedagógico nem me assiste qualquer crença. Fica assim.

Afixado por Soledade em março 5, 2006 06:18 PM

Destaquei o texto, mas como entendo o desânimo.

Afixado por Mário em março 5, 2006 07:27 PM

Acho espectacular este texto...
E deixo a pergunta: Alguma vez alguém, em casa, na Escola ou na Universidade, entre tantos esclarecidos professores, nos mostrou a grande literatura como algo de interessante e formativo, e, não como uma coisa árida, apenas para «preencher» a nossa cultura geral? Alguma vez algum «desses esclarecidos» soube passar-nos a magia e a lição dos textos que lemos fazendo-nos participar e ir mais longe na observação, na análise e na crítica?
Não foram sempre a literatura, a ficção e arte vistas como coisas inúteis, elementos de fachada?
Pois, por isso, temos o mundo que temos...

Afixado por T. em março 5, 2006 08:18 PM

Obrigada por ter colocado este óptimo texto. Sem o desabafo, ter-me-ia escapado :)
Coragem para a semana.

Afixado por ana assunção em março 5, 2006 08:23 PM

Peço desculpa pelo meu atrevimento...
Mas fiz uma ligação ao seu blogue num texto que acabei de publicar. O seu texto pareceu-me uma boa resposta a um comentário que eu tinha acabado de receber. Tudo isto a propósito dos percursos de Eça e do papel da grande Literatura na formação das pessoas e dos cidadãos...
Obrigada!
~T.

Afixado por T. em março 5, 2006 09:07 PM

Gostei imenso de ler este texto.

Afixado por M em março 5, 2006 10:12 PM

Sei que não mereço tanto, mas o seu comentário está escrito de uma forma lindissima «Estava um dia lindo, bom para gestos derradeiros, e esse ar luminoso e macio que Eça tantas vezes evoca ...»
Obrigada

Afixado por T. em março 6, 2006 12:58 AM

O texto de Maria Alzira Seixo exprime muito do que eu penso. E, ao contrário de Pedro Costa, que também aqui deixou um comentário, creio que invocar a herança de Salazar faz todo o sentido. Aliás, no texto isso é nuclear. Tempo, tão necessário para crescer, nem os professores o vão tendo — qualquer dia o Governo, alegando problemas orçamentais, despede os funcionários administrativos das escolas e põe os professores a desempenhar as suas funções burocráticas. Quanto ao papel da literatura no ensino — qual no ensino! na vida —, seria bom que se entendesse que é formativo, de longe mais importante do que a própria linguagem, que é um mero veículo. Obrigado, Soledade, por ter chamado a atenção para este texto.

Afixado por Helder Guégués em março 6, 2006 09:31 AM

Ainda bem que "passei" por aqui pois não tinha visto este texto. Sou professora de matemática, aquela "coisa" horrorosa (actualmente, a coisa tanto se refere a matemática como a professora ...), pertenço ao grupo dos responsáveis máximos pela desgraça do meu país.
Quando há anos a legislação permitia, ou antes, instruía, no sentido de facilitar a passagem de ano dos alunos, ou antes, no sentido de impedir a sua reprovação, desabafei com alguém. Parecia-me uma medida tomada na perspectiva de a longo prazo criar cidadãos(?!)sem condições de exercer os seus direitos de cidadania. Porque pouco instruídos, pouco críticos e porque pouco críticos pouco exigentes. Que não, a medida seria obviamente para a estatística mas não mais do que isso.
Passados vários anos continuo a manter a mesma opinião. Como é possível que existam condições que permitem que alunos de 10 anos tenham acesso ao 5º ano de escolaridade sem saber ler!!! Não falo em interpretar textos, falo em ler no sentido mais simples- saber que letras não são gatafunhos e não se agrupam por acaso. Mas há também os que SABEM LER - vão soletrando, soletrando, até finalmente verem o final da palavra! E depois há os súper- sabem realmente ler. Mas estes são os súper e como tal em número reduzido. Não faltará muito para considerá-los génios! Numa turma de 19 alunos há 4 que dominam a leitura. Como é possível planificar qualquer tipo de ensino, de 2º ciclo, para crianças assim? Penso muito em alguns alunos que transitam para o 3º ciclo(legalmente)...como é possível desenvolver o ensino correspondente a esse nível?
Até acredito que a Escola possa ser um paraíso, mas até aí "uma organização transcendente impôs regras".
Concordo o mais possível com o texto.Traduz muito do que penso. Obrigada por o ter colocado. Peço desculpa pelo meu abuso, abusando deste espaço. É um desabafo.


Afixado por dores em março 6, 2006 05:16 PM

Olá Soledade, pelos vistos temos aqui uma grande polémica, no bom sentido, claro.
Começando pelo texto da Alzira, continuo a dizer que lhe reconheço, para além da qualidade do português, argumentos poderosos na defesa do ensino da literatura, da exigência, da qualidade, do rigor, aspectos que no entender dela, e de tantos nossos colegas, andam um pouco afastados do ensino. Este ´abaixamento da fasquia`, como todos sabemos, deve-se à massificação do ensino (eu prefiro chamar-lhe democratização), pois houve a entrada obrigatória para o sistema educativo de todas as pessoas com idade escolar, fossem elas amarelas, azuis, deficientes, disléxicas, coxas, do campo, gordas... e isso parece que atrapalha. Acredites, ou não, a sociedade no geral, no seu conjunto e em termos demédio e longo prazo, beneficia mais com um sistema destes, do que com um sistema em que os principais valores sejam a rigidez, a selecção, ... as tais qualidades utilizadas demagógicamente: rigor, exigência, qualidade, etc.
Bem, mas o que me interessa mais no meio disto tudo é que não vejo outra forma, fosse eu iluminado, para defender a nossa dama: a literatura, sem que com isso, não sejamos corporativistas.
Dito de forma ainda mais simples, há que lutar contra a Arte, contra a Educação Física, contra a Matemática, contra, contra, contra, porque o espaço é curto, as horas são poucas...

Beijo, PCosta

Afixado por Paulo Costa em março 6, 2006 08:37 PM

Olhe Soledade, mesmo que seja só para desabafar, não deixe de colocar textos destes no seu blogue. Quem sabe a nossa ministra não os lê?! Força! :)

Afixado por Ana Maria em março 7, 2006 06:02 PM

Agradeço-vos a todos:

Eliana, a(s) (tantas) solidariedade(s). És uma colega extraordinária!

Mário, a compreensão, desejando o melhor do mundo à Jasmim e à Salpico (sei que têm sorte, elas as duas).

T, a gentileza, o testemunho - e aproveito para vos convidar a ler, em http://por-um-fio-invisivel.blogspot.com/ , textos de Eça acompanhados por algumas das mais belas fotos da Lisboa queirosiana. Estímulo à(s) leitura(s) :)

Helder, obrigada pela opinião desassombrada; conforta-me, particularmente porque vem de quem me merece o maior respeito, http://letratura.blogspot.com/ , ponto de referência neste pântano em que se transformou o estudo da língua.

Dores, não é abuso nenhum, sinta-se em casa. Sabe, em tempos tive muitos desentendimentos e discussões com "os de" Matemática; hoje, alguns dos colegas com quem experimento maior afinidade são justamente da Matemática. Que afinal também é uma linguagem. E o desenvolvimento da competência (esta palavra faz-me ranger os dentes)de leitura não é exclusivo do Português. Costumo dizer aos meus alunos que a vida é um texto. E seguramente a Literatura ajuda a decifrá-lo. Mas como andamos todos a brincar às escolas do Paraíso e a tapar o sol com a peneira... Desabafemos, se isso nos desoprime um pouco. E agora sou eu quem diz: coragem! E lhe pergunta: conhece o site do Nuno Crato? Vale a pena lê-lo.

Ana Assunção, estou em plena retirada russa. Está muito frio e os meus soldados têm falta de agasalhos e de comida. Enfim, cá vou, desesperadamente tentando evitar Waterloo.(lembrou-se da nossa conversa, fez-me sorrir).

Ana Gil, o Nocturno tem de abrandar, o meu tempo escasseia. Obrigada pelo apoio, tudo de bom para si, e um beijinho :-)

Paulo, deixei-te para o fim porque me obrigas a uma longa resposta e eu estou com tempo contado. Mas só duas coisas:
No texto da Alzira Seixo não estava em causa a proeminência de uma disciplina face às outras, não se tratava de guerrinhas corporativistas entre grupos disciplinares. Aliás, vê a resposta que dei à colega Dores. E tb na Educação Física se lê/aprende a ler. Estava em causa, sim, uma dada concepção de escola (a que pastoreia crianças, os Bons Selvagens - alguém nas ESE(s) e no Min-Edu está a precisar de ler o "Senhor das Moscas"- e, no que concerne à disciplina de Português, os novos programas, centrados na (obcecados pela?) perspectiva comunicacional e (vou ranger os dentes outra vez) transaccional, encarando a literatura como "componente decorativa e obsoleta".

Segunda coisa: tens razão quando referes a massificação do ensino e os problemas que isso trouxe à escola. Mas a solução não é entreter crianças, inventado simulacros de sucesso. É respeitá-las, porque elas merecem todo o nosso respeito, é "puxá-las para cima", e não descer ao nível mais raso; é não ter medo de ser politicamente incorrecto e assumir, de uma vez por todas, que a escola dita "inclusiva" é na verdade profundamente injusta, exclusiva e selectiva (a selecção fá-la-á a vida, mais tarde, e da forma mais cruel). Isto porque enfiar crianças "amarelas, azuis, deficientes, disléxicas, coxas, do campo, gordas" nas mesmas (e cada vez maiores) turmas, e fingir que é possível, nessas condições, um ensino diferenciado e uma leccionação eficaz, é condená-las, à partida, ao insucesso. É enganá-las. Tem de haver outro caminho: começar por admitir a diferença; e permitir a cada aluno chegar tão longe quanto puder, em lugar de nivelar todos pelo mais baixo denominador comum. Pastorear crianças e jovens, promover uma cultura da impunidade e da mediocridade, infantilizá-los, mantê-los na ignorância e depois largá-los, impreparados, num mundo cada vez mais hostil, parece-me criminoso. Dói-me, revolta-me! Muito mais que as provocações e humilhações da Sra Ministra.
E é isto que eu penso.
Sucesso, Paulo, e um beijo

Afixado por Soledade em março 8, 2006 08:30 PM

Já tinha saudades de um post destes. Perfeitamente de acordo, recusando em absoluto que massificação (ou democratização como alguns ideólogos querem) seja sinónimo de imbecilização.
Uma sugestão de leitura: O"EDUQUÊS" EM DISCURSO DIRECTO - uma crítica da pedagogia romântica e construtivista. (está lá tudo)
Por Nuno Crato.
Edições gradiva.

Afixado por josé em março 9, 2006 11:45 PM

Um beijo à Manuela, que me escapou o seu comentário, e não merecia tal descortesia: muito obrigada!
Um beijo

Afixado por Soledade em março 11, 2006 09:06 PM

José, grata pela indicação do livro. E por partilhar deste entendimento que a tantos parece uma heresia.
Um abraço

Afixado por Soledade em março 11, 2006 09:11 PM

Well que posso eu dizer..é uma luta sem destino para sempre, por muito que se lute acho que eles não vão mudar nada de nada, estão demasiado preguiçosos para isso :S é caso para se dizer biba a Lei do menor esforço para os "politicos"....!!!
Beijinhos
Sílvia Lopes

Afixado por Sílvia em março 13, 2006 10:45 AM

Olá, Sílvia, essa descrença nos políticos, nas políticas da educação... que hei-de dizer-te? Queria ser optimista, mas de facto... Como vai a Faculdade?
Beijo, saudades

Afixado por Soledade em março 13, 2006 01:50 PM

Há que ser optimistas mesmo que não seja possivel sê-lo :P A faculdade vai de mal em pompa, mas há que ser optimista c´est pas vrai!?!... Ando adoentada e sem vontade de estudar :# sei que é mau dizer isto mas é a verdade estou-me a @£{[€§£€@£### para a faculdade, mas isto há-de passar :) (espero)... Mas vá coragem para ambas é que é preciso, que a força esteja connosco :))))))

Jokinhas desta ex aluna desnaturada :P (quando vem cá para me mostrar as coisas "belas" de lisboa???).....

Afixado por Sílvia em março 15, 2006 05:02 PM

Silvia, não gosto de te ouvir falar/escrever assim. E o resto da conversa fica para as férias, que não pode ser pública.
Beijinhos. Tem juízo, sim? Vá lá!

Afixado por Soledade em março 17, 2006 10:44 AM

Professora, de Português, consciente da complexidade do ensino e da aprendizagem da Língua Materna e da importância da segunda na estruturação do raciocínio lógico, determinante no sucesso de todas as outras aprendizagens.

Embora pouco frequentadora de blogues, apanhei a discussão quando procurava material para TENTAR, uma vez mais, defender os alunos; a TLEBS só é compatível com meninos muito espertos (leia-se: de nível socio-cultural elevado - e a esses interessa tanto ou menos que aos outros), muito ricos (leia-se: com capacidade económica para pagar explicações). Quanto à exigência, de acordo, mas que seja sobretudo no trabalho;obrigada, Soledade, pela visão politicamente incorrecta, que partilho. Cada um de nós tem de tentar "puxar para cima" os que connosco trabalham, sobretudo quando são crianças cujo futuro está de algum modo nas nossas mãos.
Alguns comentários, que não consegui que fossem breves (a propósito: sabiam que agora as crianças do secundári têm de APRENDER FILOSOFIA? - não será isso que está nos programas, mas é isso que se está a fazer, acreditem).

1. A TLEBS não é compatível com o escalão etário e o grau de desenvolvimento cognitivo de nenhum dos níveis de escolaridade aos quais se destina; agradeço a colaboração de quem, possuindo autoridade na área da Picologia Cognitiva, corrobore o que, ainda que com uma incipiente formação nessa área como a que detenho, é uma inegável realidade.

2. A TLEBS é incoerente a nível conceptual, metodológico e epistemológico, colocando dificuldades insanáveis no que toca à sua aplicação à LÍNGUA.

3.Para além de inútil, em grande medida e na maior parte da sua extensão, para a aprendizagem da língua materna, a TLEBS irá consumir o já escasso tempo lectivo dedicado ao ensino do que realmente interessa: ler, escrever, pensar, estruturar o raciocínio por via da linguagem - e não por via de UMA gramática.

4. A TLEBS não é um instrumento pedagógico - é um negócio à custa dos interesses comuns de alunos e professores.

5. Os senhores linguistas NÃO SÃO donos da Língua, nem do ME - são apenas, muito provavelmente, amigos de quem LÁ está.

MORRA O DANTAS!!!

Afixado por Paula Lago, PROFESSORA, de Português em março 17, 2006 05:12 PM

Paula, neste momento sofro (no sentido arcaico que a palavra tinha) a tlebs e, quando venho ao blogue, queria descomprimir: a minha profissão tornou-se geradora de tamanha angústia que preciso de "desligar", às vezes. Mas não queria deixá-la sem resposta.

Não tenho autoridade em Psicologia Cognitiva, não posso portanto ajudá-la, mas, pela experiência de mais de 20 anos de ensino, vejo bem que a tlebs não está a funcionar, que não tomou em consideração os níveis etários dos alunos, e que aqueles que a ela estão submetidos (e ponhamos canga nisto) manifestam desprazer pela disciplina, não escrevem melhor, não são melhores leitores e vão ganhando resistência ao estudo da língua e das suas realizações. Postular que o desenvolvimento da competência metalinguística dos alunos (veja-se, por exemplo, o 1º e 2º parágrafos da Introdução do Programa) é solução para a iliteracia, afigura-se-me bizarro. A desvalorização da literatura e dos contributos da gramática de inspiração latina, como se fossem objectos quase pestíferos, tem algo de inquietante.

O primeiro problema, a meu ver, é portanto o próprio programa, sendo a tlebs apenas a cereja no topo do bolo, como já disse aqui uma vez. É certo que se descurava muitas vezes o ensino da gramática e que nem sempre se fazia a melhor gestão do antigo programa (o qual, aliás, nunca foi avaliado, sempre esta correria cega e esparvoada para qualquer outra coisa). Parece-me então que a solução seria corrigir o problema, e não arranjar um problema novo. Ainda por cima, o modelo científico a que a tlebs corresponde está longe de ser consensual entre os linguistas. E dividiu toda a gente. Tanto quanto pudemos observar, ele é o amargo fruto de um conturbado processo de guerras intestinas no seio das universidades e entre universidades também. E que há gente a ganhar com isto - "poder científico", prestígio e dinheiro, não duvido. Só na APP, pipocam como cogumelos as súbitas acções de formação. Pagas, claro. Os Centros de Formação só recentemente começaram a mexer-se, e com severas restrições orçamentais.

Tenho aqui um documento http://cfaematosinhos.cidadevirtual.pt/Sessao_1_2.pdf interessante que me diz que a tlebs se assume como modelo "norteado pela abertura, economia, flexibilidade, hierarquização e neutralidade pragmática". Uau!, não é?! Economia?! Hierarquização?! As áreas de análise cruzam-se de tal forma que só o esforço de as destrinçar para as tornar tornar acessíveis aos alunos consome a maior parte do meu tempo de preparação de aulas e uma boa parte das aulas, descurando aspectos que seriam seguramente mais úteis. Para não falarmos da gíria técnica. "Abertura" e "Flexibilidade", sim! - tanta, que não restam pontos fixos, nexos em que os miúdos possam firmar-se para estruturar as suas aprendizagens. Ora aprender exige âncoras, aprender é justamente construir estruturas fixas que a seguir desestruturamos para chegar a aprendizagens mais complexas que integrem as anteriores. A tlebs impede este processo, ou dificulta-o enormemente, porque nela tudo é relativo e contextual: derivamos, portanto. O Pós-Modernismo chegou à gramática.

Acredito que havemos de arranjar a melhor maneira, na nossa prática docente, de lidar com isto, de lhe dar a volta, e de aproveitar da tlebs o que ela tem de útil (que muita coisa tem), mas este ano tem sido uma corrida desenfreada contra o tempo, o desespero de não sermos ouvidos e a prepotência cega de quem manda. Está a ser um ano negro para a educação. Mas olhe para os meios de comunicação: alguém fala disto? A Ministra (sendo que a implementação a trouxe-mouxe dos novos programas foi o inestimável contributo do Justino para este caos) brilha no esplendor da sua autocracia. Gosta-se disso, neste país, parece-me.
Um abraço

Afixado por Soledade em março 18, 2006 02:02 PM

Caras Paula e Soledade,

Apesar de ter prometido à Soledade que não voltava a escrever aqui, não posso deixar de o fazer, só para, muito brevemente, transmitir a minha opinião. Sou docente de português há vários anos e passei as passinhas do Algarve por, durante o meu estágio e nos anos que se lhe seguiram, ter tido a ousadia de querer cumprir o currículo nacional e programas, ensinando gramática. Quando digo que passei as passinhas do Algarve, não estou a brincar: numa escola, fui excluído de reuniões e de projectos e apelidado de fascista, porque a gramática parecia que traumatizava.
Compreenderão que, neste contexto, foi com alegria que vi a TLEBS a surgir como referência obrigatória para os exames nacionais. Finalmente, surge uma medida que obriga os meus colegas a prestar a devida atenção aos conteúdos de gramática.
Entendi desde o início qual era o maior risco da TLEBS, que, tanto quanto me apercebo, é o que está a acontecer em muitas escolas: a sua transposição directa para os alunos. A TLEBS é para nós, para definir os termos que estão nos programas. Não serve para mais nada. Por isso, parece-me que os comentários sobre a sua inadequação aos alunos são tiros ao lado do alvo. Podemos questionar e discutir se os termos estão bem definidos. Alguns acho que sim, outros, acho que não. Mas aquilo não é o nosso único recurso, não é verdade? Temos gramáticas, internet, materiais de apoio, etc.
Se pegarmos naquilo e pusermos a base de dados nas mãos dos alunos aí sim não tenho dúvidas de que haverá muita asneira e eu nem falaria de dificuldade de uso da TLEBS, falaria sim de impossibilidade.
Enfim, o que me parece é que estas polemicazinhas em torno da TLEBS são uma falsa questão. Não é a TLEBS que causa problemas mas a súbita obrigação de ensinar gramática. Se olharmos para a nomenclatura gramatical, em várias áreas as diferenças não são assim tão radicais. Falam de qualquer coisa científica subjacente à TLEBS. É falso. Não há uniformidade de modelo linguístico. Eu estudei gramática generativa e funcional e vejo que estão lá as duas.
Isto leva-me ao texto da professora Alzira Seixo, que foi minha professora e cujas opiniões e cruzadas conheço desde esse tempo. O texto que escreve é bonito e rico. Ninguém nega que a Literatura corresponde ao uso mais magnífico e rico da língua, mas temos de ser honestos e confrontar-nos com algumas questões reais que têm sido levantadas nos últimos anos:
1. Temos já 30 anos de prática de ensino exclusivo da literatura na aula de língua portuguesa. Que avaliação se pode fazer da ausência de ensino da gramática?
2. Temos excelentes alunos em português, que sabem ler e interpretar Literatura, mas não sabem escrever um relatório ou interpretar um regulamento ou um texto científico. Devemos apenas assobiar para o lado?
3. Quando ensinamos latim, temos de ensinar gramática portuguesa e ouvimos comentários de surpresa dos nossos alunos ao descobrirem que sujeito, complemento directo e outros termos assim não são um exclusivo do francês. Ninguém tem responsabilidade sobre este estado de coisas?
4. O debate ensino da literatura vs. ensino da gramática é obsoleto. Os melhores professores de linguística e de literatura que tive não se revêem nele e acham-no ridículo. É datado das lutas políticas entre sectores das universidades nos anos 70. Que sentido faz andarmos nós a eternizar o que já não faz sentido?

Nunca me ouvirão defender o fim do ensino da Literatura, mas nunca defenderei que na Literatura se encontra a solução para os problemas que temos no ensino, porque nada o prova.
Podemos apontar para o lado, dizer que a culpa agora é da TLEBS, dos programas, das escolas, dos pais, dos alunos, do que quisermos, mas não esqueçamos que andamos há 3 décadas a fazer da aula de português o cantinho da expressão, dos afectos, dos sentimentos e da estética. A aula de português será um espaço propício para alguns destes aspectos, mas mal estaremos se a esgotarmos nestes objectivos.

Bem hajam.
João Pereira

Afixado por João Pereira em março 19, 2006 03:36 PM

João, primeiro que tudo, gostei que voltasse aqui. Não nos despedimos cordialmente da última vez, o João sentiu-se injustiçado porque acedia de um posto público e alguém se fez passar por si; e eu fiquei cheia de suspeitas de que o João teria vindo para me provocar. Sem ressentimentos de parte a parte, espero. Mas não em concordância. Vejamos:

Eu não entendo como se poderia trabalhar a significância ou praticar o aperfeiçoamento de texto ou da produção oral sem recorrer ao funcionamento da língua. Sempre trabalhei a gramática partindo de situações de uso; depois, sistematizando-a. Admito que a minha finalidade primeira nunca foi o "desenvolvimento da competência metalinguística", mas o das competências expressivas: conhecer a gramática para poder compreender e exprimir-se melhor e para desenvolver o pensamento abstracto. E porque a língua é bela. Ou costumava ser... E nada me convenceu ainda de que não deva ser assim nos níveis de escolaridade com que trabalho. O grande problema, antes da TLEBS, já o disse noutro comentário - o grande problema é o programa. E antes do programa, esta desastrosa Revisão Curricular no seu todo.

O João diz: «Temos excelentes alunos em português, que sabem ler e interpretar Literatura, mas não sabem escrever um relatório ou interpretar um regulamento ou um texto científico.» Se interpretam textos literários, que correspondem, como bem diz, "ao uso mais magnífico e rico da língua", interpretarão os segundos (não sendo o inverso verdadeiro) porque os níveis de complexidade da leitura exigidos por estes são bem menores, raramente chegando, por exemplo, à inferência. Assim, fazer recair sobre o estudo da literatura o ónus da iliteracia parece-me ideia peregrina e enviezada. E a sua referência aos textos do "domínio transacional" faz-me sorrir: eles integravam o antigo programa, desde o 7º Ano, e os garotos sempre fizeram actas de eleições de delegados de turma, relatórios de projectos e de visitas de estudo, cartas a requerer ou a reclamar algo, contratos de aula, regulamentos de clubes... Sempre houve quem trabalhasse assim, e se outros o não fizeram, não teria sido mais sensato avaliar programas, professores e escolas antes de se avançar desta forma atabalhoada que tanta discórdia tem gerado? Porque se abortou a Avaliação Integrada das Escolas?!

Quando o João diz que na TLEBS "Não há uniformidade de modelo linguístico", tb eu o digo, mas isso preocupa-me: vejo-o como um sintoma da tendência dominante dos nossos tempos para o relativismo em todas as áreas. No ensino há que ter cuidado com os relativismos, sobretudo nos níveis etários com que trabalhamos. Falei disso tb no anterior comentário.

Ainda: refere os colegas de latim e das línguas vivas estrangeiras: pois a TLEBS começa a levantar-lhes problemas a eles. Pois é, apesar do esforço de uniformizar as nomenclaturas gramaticais portuguesa, inglesa, francesa, castelhana, os colegas de línguas estrangeiras agora têm muito mais dificuldade em recorrer à analogia. E no latim tornou-se ainda mais complicado, não será preciso explicar a razão.

Por fim: «O debate ensino da literatura vs. ensino da gramática é obsoleto.» Estamos de acordo. Aliás, o que se debatia aqui era a concepção romântica e rousseauniana da escola, o paraíso dos bons selvagens, e a nivelação, por baixo, de todos os alunos, em nome da democratização da escola. Creio que a questão da Literatura, do seu quase desaparecimento dos programas se relaciona também com isto: não dar aos alunos o que eles acham difícil, longínquo da sua experiência - facilitar, em suma.

«nunca defenderei que na Literatura se encontra a solução para os problemas que temos no ensino»

De acordo. Mas na sua obliteração também não, e nos novos programas ela aparece como pretexto para ilustrar protótipos textuais e pouco mais. Ora a Literatura escapa a essa ânsia tipificadora, e trabalhá-la assim desvirtua-a; por outro lado, Literatura é memória, é património, é identidade, e por isso me inquieta o seu quase desaparecimento, pois se o contacto com os grandes autores não ocorrer no Ensino Básico e, sobretudo, no Secundário, não ocorrerá nunca mais, para a maior parte dos cidadãos deste país - o oblívio, portanto. Não perde a Literatura, ela vive na sua gratuidade, como toda a Arte; perde-se é a nossa identidade e memória, perde-se o nosso sentido de pertença a um colectivo nacional e cultural. Vai-se perdendo..

O tempo dirá de todas estas polémicas.

Sucesso, João!

Afixado por Soledade em março 19, 2006 07:30 PM

Só para terminar:

«Mas aquilo não é o nosso único recurso, não é verdade? Temos gramáticas, internet, materiais de apoio, etc.»

João, o problema é que é mesmo a nossa ÚNICA referência, com todos os erros e gralhas e contradições (e discrepâncias relativamente às instruções do exame). Não há gramática, não há materiais de apoio, nada de nada que esteja 100% de acordo com a base de dados. Nem a "bíblia" da Mira Mateus; nem os "Cadernos de Língua Portuguesa" da APP. NADA! E dizer que é para os professores é bonito. E o que é afinal para os alunos? Os programas são vagos, no que concerne ao funcionamento da língua, e remetem para uma terminologia que há-de sair. Saiu. Em cima do exame nacional!

Afixado por Soledade em março 19, 2006 07:46 PM