Acabei de ler o artigo e, claro, lembrei-me da nossa conversa de há algum tempo a propósito do filme " Ils ne mourraient pas tous..."que, entretanto, vi. Espero que, um dia destes possamos voltar a falar dele.Também no filme,os psicólogos ouvem e conseguem descortinar e tipificar uma estratégia que abrange tudo o que a Soledade aqui fez ressaltar do artigo do Bourdieu:a destruição metódica dos colectivos, a luta de todos contra todos(onde é que nós já vimos isto...)uma espécie de forma de insanidade incompreensivel. As pessoas acabam por perder as referências, a sua relação aos valores do trabalho é posta em causa, a estratégia está montada para isolar e eliminar um a um os obstáculos que neste caso são seres humanos que aguentam, sofrem, levam para casa; isto com as subsequentes repercussões a nível social, familiar e até, claro, íntimo.
Os psicólogos falam de uma estratégia, tantas vezes observada, a que chamam de 360º: todos olham para todos, todos vigiam todos no trabalho. Enquanto são uns, os outros são cúmplices e assim vai-se repondo no lugar dos que caem uma população que já está amestrada, debilitada pela ameaça da precarização e do desemprego e pelo medo que tem das regras do jogo e contra as quais pouco ou nada pode. As solidariedades já não existem e o isolamento cumpre inexorávelmente o seu papel.
Parece incrível que todos, a um momento ou a outro, tenhamos a sensação de ter sido levados, de ter entrado no jogo, porque sem uma estrutura de apoio, fica-se rapidamente com a ideia de que se é um lixo quando se perde o emprego...
Desculpe lá o tamanho das considerações que pouco acrescentam ao artigo.
Falta dramaticamente um princípio de resposta...
Bjo
« programa de destruição metódica dos colectivos »
Quando li o seu texto complementar ao de Bourdieu, a primeira coisa que me veio à ideia foi : sem o colectivo o ser humano nada é , nada pode ser. Ele existe porque os outros existem e só em colectivo se pode consentir. Mas depois li o poderoso comentário da Ana e pensei que mais não é preciso dizer : só fazer... Fiquei também curiosa com a referência a esse filme ...(???).
Beijos às duas e bom domingo.
Fernanda, angustia-me e revolta-me esta desumanização brutal do mundo do trabalho gerada pelo neoliberalismo e pela globalização. Sofro-a já na pele, como tanta gente. Sabe a que me refiro. E que será das nossas crianças? Que mundo lhes estamos a fabricar? Quanto à sinopse do filme, encontrei-a há tempos na internet, fiquei impressionada e mais tarde coloquei alguns excertos, com esta mesma terrível imagem, no chelseahotel. A Anita tinha lido então um livro sobre as consequências psicológicas da flexibilidade no emprego, falámos sobre isso. E foi ver o filme que passou há dias no Instituto Francófono. É como ela diz no seu "poderoso comentário": há um padrão, estamos metidos na armadilha do todos contra todos em nome de uma mais que primária estratégia de sobrevivência. E agora que faremos?
Ainda quanto ao filme, é um documentário, chama-se "Ils ne mourraient pas tous, mais tous ont étè frappés". Dele diz-se:
«Le titre est tiré d’une fable de La Fontaine : "les animaux malades de la peste". Tout un programme... qui évoque la tragédie, une condamnation sans appel, des destins sacrifiés. La mort en marche, inéluctablement. Et c’est bien de cela qu’il s’agit ici: de personnes à bout, de vies broyées, de chutes dont on ne se relève jamais. Sophie Bruneau et Marc-Antoine Roudil ont posé leur caméra dans un cabinet médical pour filmer les consultations de salariés malades de leurs travail : gérante rétrogradée du jour au lendemain au poste de manutentionnaire, employée de collectivité harcelée suite à un accident du travail, responsable d’agence pressuré par des objectifs délirants, ouvrière à la chaîne usée par un rythme toujours plus rapide. Ils sont quatre (sur les trente-sept patients filmés) à venir raconter leurs souffrances, leurs hontes, leurs sentiments de culpabilité, à un médecin qui les écoute intensément.»
A banalização do mal no mundo do trabalho - não lhe faz pensar em nada, Fernanda? Em declarações por exemplo, da mulher que se senta na 5 de Outubro.. E isto são tremoços. A coisa é muito mais funda.
Enfim, é tarde, descansemos e esperemos, quero dizer: espérons.
Beijo
Ana, as suas considerações são muito bem vindas. Tive pena de não ter podido ver o filme. Gostava que falássemos um dia destes, e não só do filme. Já viu como é difícil encontrarmo-nos? Entrámos no esquema, na quadrícula, o trabalho sequestrou-nos. E "falta dramaticamente um princípio de resposta". Mas não se pode viver assim. Isto vai estourar. A saber é quando e com que violência.
Não são pensamentos para se terr antes de ir dormir.
Uma noite descansada para si
Bj
...e quem poderá estar desatento ao que se passa em tempos de globalização? Também gostava de entrar mais longe nessa conversa...refugio-me na palavra dos poetas, tentando evitar também a globalização do pensamento e a sua univocidade e primeiro, a tornar-se único...com os votos «democráticos» de todos nós - ou da maioria.O facto incomoda-me.Hoje nada mais direi.
E de que adiantaria que eu falasse? Estou desconsolada,como tantos.
Conversaremos entre nós, sim. Também não gosto disto, Amélia, do rumo das coisas. Também prefiro quando posso sentir o vento e cheirar as flores ou o ar marítimo ou descobrir belos poemas. No entanto, há dias em que não consigo gerir a indignação, o ultraje e, pior que tudo, o sentimento de impotência.
Mas há a poesia. E os afectos. E a esperança. Olha, fui lanchar com dois jovens amigos, a um deles levei a tua História da Literatura. Já saberás quem são. Ele ficou contente. Há a esperança, pois :-)
fantástico o seu resumo ... é mesmo isso o neoliberalismo. Adormecidos ou anestesiados,
vamos deixando de nos surpreender ... ocorrem-me
2 exemplos, 2 conquistas agora ameaçadas: a previdência e o "não à energia nuclear" ... o ataque começou e é diário. De repente ficou impossivel sustentar velhinhos e o nuclear
passou a ser uma energia segurissima, esquecidos
que estão three miles island e chernobyl.
O tecnocrata neoliberal olha para a folha de cálculo, vê em algumas colunas percentagens que não lhe deixam dúvidas e, na sua utopia ultraconsequente, decreta! sem sair do gabinete,
sem ligar aos pequenos dramas pessoais,
desumanamente. Vou apontando "os maus" na tv
aos meus filhos, numa vã esperança que a
geração deles seja menos cobarde.
bjs
Mais ou menos anestesiados, sim, Pedro, pelo consumismo (que nos aprisiona a necessidades artificiais e nos isola uns dos outros). E, quando não anestesiados, paralisados de medo. Não percebo de economia, mas percebo que a sociedade se vai tornando progressivamente mais inóspita para os seres humanos; que tudo o que não sirva a divindade Mercado é privilégio ou direito adquirido, e que estes termos ganharam conotação pejorativa e se tornaram perversamente sinónimos. Hoje, defender a protecção dos desvalidos, o Estado social (para que diabo pago impostos?!), o apoio à velhice, o direito à saúde, à instrução e à educação de qualidade para todos, é ser-se jurássico. Mas, se se desmonta o tal "discurso forte e ultraconsequente", o que se parenteia é uma espécie de psicose inconsequente.
Diz-me que vê tv com os seus filhos: não podemos ignorar a tv; mas, se temos de a aguentar, essa é, do meu ponto de vista, a maneira certa de lidar com ela - acompanhando os filhos. A esperança não é, portanto vã. A nova geração pode ser mais combativa e lúcida que a nossa. E ainda sobre pais e filhos, aproveito para recomendar a leitura desta entrada no Reflectindo, o blogue da amiga Eliana: http://canseiras.blogspot.com/2006/10/maus-pais.html
Um abraço, Pedro, muito bem vindo ao nocturno com gatos
Afixado por Soledade em novembro 5, 2006 05:40 PM