Em comentário escrito ontem à meia-noite, mas que não consegui ainda fazer entrar,dizia eu que estava já para ir dormir quando passei por aqui e li este teu (mais um) magnífico poema, que me causou e causa um impacto fortíssimo. Não, é certo que «nada poderá fazer voltar a hora do esplendor na relva». Mas talvez sim, certamente que sim, pela palavra possamos chegar a ela, a essa hora de esplendor - e também pela memória, ainda que também ela seja fugidia e evanescente, dos momentos passados – assim redivividos - e presentes só mesmo na reminiscência. E quando no presente surjam, por vezes, breves interstícios, aparições luminosas - aproveitemo-los/as, sabendo-os/as efémeros/as -c omo se, sabendo-o, não o soubéssemos - num «fui-o outrora agora» e fiquemo-nos, assim, qual «pagã(os) triste(s) e com flores no regaço». [Dói pensar, sim.] Então façamos como se...o nosso olhar pudesse, ainda que por instantes, voltar a ser «nítido como o girassol» - procuremos esse olhar, mesmo que no gesto de tocar e cheirar uma flor ou de abraçar, ou de olhar enternecido e grato, uma árvore. Porque, na verdade, como tu magnificamente dizes, «Todo o amor/ conhece fim, mesmo o da terra».
Quem me dera poder, como tu o fazes, saber dizê-lo, assim – é um modo também de recuperar esse enternecido olhar para o antes. Por isso fico grata a quem me dá tanta beleza e me faz sentir, emocionar, «fingindo» «a dor que deveras sente»- em tantos dos teus poemas e agora neste Dano -teu, que compartilhas.
" Sem caminho de regresso
ao pequeno incêndio mal cuidado.
Lembra-te do rosto à chuva e à soalheira de agosto,
dos amigos, dos vagabundos e dos velhos familiares.
E o aroma da figueira."
Hoje, muito triste por mais uma despedida não consentida, estes versos seus, Soledade, acalmaram minha alma. Bem haja por isso.
Bjs.
Obrigada, amigas. Cultivamos a memória, a saudade. Somamos "despedidas não consentidas" e encontramos consolo em outras coisas, como as que a Amélia lembra. Enquanto dano maior não vem.
Um beijo às duas.
P.S.: O weblog está a funcionar mal, sim. E aqui chove, como se nos "Cem Anos de Solidão"
Afixado por soledade em novembro 3, 2006 04:40 PMPois é! o sr.weblog está hesitante e, olhe, não sei se vou conseguir entrar nesse porto :)
Mais um poema daqueles... e depois do comentário da Amélia, nada mais sei dizer. Vou guardando as suas palavras que se espalham em correspondências na minha memória.
Beijos
Esse caminho se regresso.
Essas saudades da figueira.
Áh.. mocidade..mocidade.
Ah... saudades da infância.
Parabéns Soledade.
Gostei muito deste seu poema!
E é com carinho que lhe deixo este meu, singelo, publicado a 16 de Setembro n'O Sino da Aldeia -porque avisar é preciso
"Vozes"
Quem te inveja
vento
por voares veloz
no tempo
semeando a voz das silvas
dos montes
e as velas dos poetas
que acendes
E tu
chuva fresca
das folhagens
quem de ti
te quer dilúvio
e lamenta tuas águas
secando a secura
dos desertos
e das almas
Ó sol da solidão
das tristes tardes
dos que te não sentem
o abraço como abrigo
peles de mármore
ignavas ignaras
Numa folha de Setembro
numa gota na vidraça
na luz que acende o dia
que venha convosco
a voz dos simples
soar mais de perto
ao ouvido
dos que a não ouvem
Este poema tocou-me profundamente.
E quando já ia pelos jardins à procura de flores para oferecer à autora, eis que vejo a Amélia trazendo no regaço o ramo magnífico que nos deu a partilhar e fiquei sem jeito.
Anita, acho é que tenho leitores gentis: que me levam sempre a bom porto, mesmo quando claudico.
Um beijo, bom domingo
Olá, João. A infância, esse tempo só de ouro na memória guardada.
Obrigada pela visita. E pelo convite :) Tentarei estar no Parque(e desta vez acho que estarei mesmo!), no lançamento do livro.
Um abraço
Jorge, não estou a aceder do meu computador, nem de casa, vou deixar para amanhã a resposta ao comentário sobre a tlebs e a visita ao seu blogue. Sorri quando vi que chegou ao nocturno fazendo uma busca sobre a dita cuja:)
Aqui quero agradecer-lhe as palavras gentis e o poema que deixa, a fazer companhia ao meu: "vozes" do que vai passando, o evanescente. Conversava há instantes sobre uma ode de Ricardo Reis. Ele diz: "Lídia, só para nós existimos". Acho que é realmente isso. Passamos breves e tão únicos.
Um abraço
Saber de heitor indo pelos jardins é flor bastante:)
Um beijo, bom domingo
Muito bom poema! Não sei se haverá maneira mais gentil de dizer que da terra que pisamos se vai evolando, talvez juntamente com as nossas forças, a nossa crença no mundo.
sete-sóis, que boa surpresa, logo pela manhã :)
Não deves descrer: «Avec le temps va, tout s'en va» Mais pas si vite!
Beijinho para ti :)
Mas sem pressa?
Ainda que tenha interpretado mal o francês, acho que fica bem: tudo se vai com o tempo, mas [enquanto vai, vai] sem pressa.
Para quem acabou de ver o Blade Runner (outra vez), são mais algumas lágrimas no meio da chuva.
Beijinhos, Soledade
Voltaste a ver o Blade Runner, sete-sóis? A beleza é frequentemente pungente e magoa-nos. Não te deixes magoar, não?
Beijinho
Quem anda à chuva molha-se :-)
Não me aflijas, menino.
E são horas de dormir:)
Bj
Não querendo ignorar o poema, tenho que perguntar uma coisa: o que tem a Jade? Aquelas fotos impressionaram-me.
Afixado por Ricardo Garcia em novembro 6, 2006 12:33 PMOlá, Ricardo. É preciso muito esforço para se chegar a ter um gato assim :) A Jade está obesa, é só isso, e não é pouco. Já não é jovem e, desde que mudámos de casa, perdeu acesso ao telhado e tornou-se mais sedentária. No entanto, neste momento em que escrevo, anda para aqui muito activa, aos pinotes. Mas está demasiado gorda. Também o pai dela se transformou em "Garfield" e pelo menos um dos filhos dela segue as pisadas da mãe e do avô. Deve haver predisposição, mas quando começou a ficar com uma enorme barriga (depois foi o dorso também) corri para a veterinária. Mas análises, ecografias, etc, nada revelaram além de gordura. Ficou em dieta rigorosa (não te conto das noites que passou zangada, a miar de fome) perdeu 1,500 kg bastante depressa e fomos por isso muito parabenizadas pela veterinária. Mas teve cálculos renais e tivemos de interromper aquela dieta. Agora come outro tipo de comida, pouca quantidade, e o processo de aumento de peso parou, de facto, mas peso não perdeu nem me parece que venha a perder. Tudo bem, agora tenho uma gata redonda, pronto! E vista de cima é mesmo impressionante, porque as patas já não estão no prolongamento lateral do dorso, este alargou-se consideravelmente para os lados e transborda. Tenho uma amiga que lhe chama Dona Mesa. Desde que a Jade se sinta bem... E não parece estar mal, só exige é respeito :)
Festinha ao Capitão
tenho sempre muito pudor nos comentários que faça, mas não posso deixar este seu poema em branco: tem a simplicadade da verdade
Afixado por luísa em novembro 13, 2006 05:02 PMLuísa, apaguei a minha anterior resposta ao seu comentário porque julguei tratar-se de outra pessoa. Agradeço a visita, de tão longe como os Açores. E a delicadeza do comentário. Fui ao umabismo e ocorre-me o mesmo juízo: a gente expõe-se quando dá a ver, e a gente expõe-se quando conta o que viu. E ainda que talvez nada seja de facto irreparável.
Obrigada :-)