Há alturas em que temos a sensação ou, mais do que isso, a certeza, que andamos cá por engano. Que somos um equívoco (desnorteado) de nós próprios e que tudo à nossa volta parece realisticamente surrealista.
Nem o corpo, e muito menos a alma, se adaptam ao existente que, objectivamnente, não é "em si", mas é para cada um de nós. E chegamos a desesperar. Corremos, por isso, em busca de um abrigo dentro de nós, o qual, por vezes, se mostra irremediavelmente pequeno. Apesar do esforço não conseguimos entrar e, muito menos, penetrar. Ou seja, não conseguimos fundir-nos nele e sentir que ali estamos seguros. O refúgio do exterior é parco. O refúgio em nós encontra-se comprometido. E emerge a náusea. A náusea. Sempre a náusea.
Procuramos algo que nos refresque. Algo que nos dê vida sobre fingida ou teatral vida. Encontramos. Por vezes encontramos e lá nos sentimos ressuscitar para "aquilo". Para "aquilo" que é o exterior. Grande. Muito grande. E para os outros. Todos. Muitos. MuitoS. Demasiados. Excessivos.
Sandra
Dito por Sandra no dia 31 de outubro 2003, às 18h15Arre!
Deixem-me existir!
Deixem-me fazer uma pausa nos 3 actos e 1 epílogo que vivo todos os dias!
Deixem-me baixar o pano e apagar as luzes!
Deixem as lâmpadas arrefecer!
Deixem o pano descair na sua plenitude!
Deixem o teatro escaziar-se!
Deixem o teatro desintoxicar-se!
...de respirações...
...de sensações de presença(s)...
...de representações...
...da actriz...
...do actor...
...dos actores no seu todo...
Deixem as fusões separarem-se!
Deixem os desdobramentos deixar de existir!
...Deixem-me ser!
Eu.
Só eu.
Na companhia de mim.
Sem mais ninguém.
Sem mais nada.
Sem mais esforços...
... Deixem-me beber um copo de... tranquilamente...
... sem pressas...
... sem tempo a envolver-me... e a empurrar-me para a frente, desmesuradamente...
... deixem-me ficar só, na companhia daquilo que dentro do copo me volta a dar vida...
... a minha vida...
Sandra
li e reli o teu 1º comentário.... :)
que poderia eu dizer mais.....
nada.
Dito por arosendo no dia 31 de outubro 2003, às 20h51:))
Dolphin.s:
acrescenta aquela tua especificidade.Sim. Aquela. Aquela que é tua. Vai lá ao teu interior buscá-la. E põe-a aqui.
Sandra
Dito por Sandra no dia 31 de outubro 2003, às 21h12Arre! Sandra,
deixa-me ler mil vezes estas tuas palavras.
Dizem tanto de tanta coisa!
(e dirão elas do teu "antídoto"?
é que li há pouco o "Antídoto" do J.L.Peixoto, um pouco apressadamente talvez, e vou ter de reler. fiquei baralhada. o seu antídoto escapou-se-me entre mortes, tantas...)
Não se pode ler o "Antídoto" apressadamente. É que se assim fôr, não faz efeito...
"Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo".
(1º Conto [da novela]- "Dentro e sobre os homens".
... a partir daqui o que se toma e a forma de digestão não pode ser brutal, devoradora, apressadamente rápida...
Faça-se a ingestão e a assimilação com uma calma deliciosa, sempre, acompanhando o aroma e o sabor de cada uma das palavras.
Sandra :)
Dito por Sandra no dia 1 de novembro 2003, às 11h17Já agora, menina Dolphin.s, para quando o José Luís Peixoto de novo no "Silêncio"?
E o "Antídoto" continua escandalosamente a tardar. A tardar. A tardar...
Deves andar muito cansadinha...
Sandra :)))))))))))))))))))))))
Dito por Sandra no dia 1 de novembro 2003, às 11h21ehehehe
Com a quantidade de livros que tenho abertos, tem sido complicado agarrar no Antídoto, e como tu disseste, é para ler com calma e tempo dedicado só a ele.
Mas lá chegarei ;)
Dito por dolphin.s no dia 1 de novembro 2003, às 13h48"Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram.(...)"
única, absolutamente única, a maneira como ele nos fala do medo "dentro e sobre os homens", melhor, a maneira como ele nos mostra o medo a falar na 1º pessoa, talvez até protagonista do livro, esse medo que percorre o livro como um "leitmotiv" (é assim que se diz?)
têm razão, tenho de reler devagar, para não me prender a um só elemento, para apreendê-los todos. e depois, a prosa poética...
Dito por margem no dia 1 de novembro 2003, às 14h56Margem:
o livro é como o Medo (encarna-o ao falar dele): prende-te completamente e faz-te prender a todos os momentos. Por mais que tentes fugir ou ignorar, não consegues, porque ele - o livro- está entre e no meio de nós. Mesmo entre e no meio de todos o que o ignoram e ainda não o leram, sentiram ou pressentiram.
Com ele, envolves-te com o veneno e com o antídoto. Com os dois. Ao mesmo tempo. E, claro, sem pressas... nem desejo de pressas... Porque não consegues que assim seja, mesmo com o ímpeto devorador da leitura.
Sandra
Dito por Sandra no dia 1 de novembro 2003, às 15h41