Comentários: Corpos racionais mastigam-se melhor.

POrfírio, sigo atentamente a tua deambulação pelas imagens do corpo que proliferam, como se vê, do cinema à fotografia, às instalações, etc. Também a mim a questão me tem ocupado, interpelado. Há, como sublinhas, uma dimensão no tratamento do corpo quer pela arte, quer pela reflexão no quadro das ciências ditas humanas, um lado supérfluo que me choca. É que, enquanto se des(cons)troi o corpo há corpos que têm fome, ou que estão condenados à morte porque a ciência e os seus fármacos não chegará até eles!
Há ainda essa racionalização do corpo que permite a sua des-articulação e re-articulação. Não sei porém, se aí impera a racionalidade ou se não se trata antes de uma via que promove a des-figuração como crise da representação e da comemoração até do humano enquanto ideal de beleza. Nestes corpo desmembrados há não só um retorno a uma fase pré narcísica, pré-comemorativa, mas ainda um atravessamento da pulsionalidade - fetichização de fragmentos, fixação de elementos protésicos. A debilidade e a plasticidade emergem a um tempo. O corpo torna-se dependente dessas suas próteses. O corpo é mais o espaço de incorporação das próteses do que um todo organizado, inviolável, auto-suficiente. Mesmo o paraíso do corpo - o Éden - é ironizado.
A perda do corpo apresenta uma dimensão trágica dado que ela é ´sobretudo a perda duma certa inocência sobre o corpo, de uma imagem (narcísica) do corpo. Ou será, muito simplesmente,
o cumprimento do mito, a sua fatalidade, o encarar a própria morte?
Com um abraço, Maria Augusta

Afixado por Maria Augusta em março 3, 2004 06:48 PM