Comentários: As revoluções

É verdade que o clima mudou muito e lamento bastante que os terroristas consigam ter hoje bastante influência na vida pública das democracias. É claro que o PP só tem de se queixar de si próprio, por ter caído na tentação de tentar manipular a opinião pública. No entanto, uma coisa é certa: um dado essencial para qualquer eleitor hoje em dia é a forma como avalia o comportamento dos diversos partidos perante a questão do terror político, tenha ele origem no fundamentalismo islâmico, no nacionalismo exacerbado, no totalitarismo neo-estalinista ou em qualquer outra "ideologia" anti-democrática. Penso que vivemos numa daquelas épocas em que a sobrevivência dos nosos regimes é mais importante do que as cambiantes políticas dentro do campo da democracia. Eu votarei sempre, nos próximos tempos, nas forças políticas que mostrarem mais discernimento na defesa dos nossos regimes e na manutenção da coesão entre nós, vítimas de quem nos declarou guerra.

Afixado por Miguel Magalhães em março 15, 2004 11:00 AM

Sim, sim. É preciso discernimento na defesa dos regimes democráticos. Um exemplo de uma coisa que mostra absoluta falta desse discernimento é o facto de haver governos que usam os serviços secretos para manobrar a política interna, como fez o governo de Aznar. Os que assim agem são aliados objectivos dos terroristas, porque minam os instrumentos de defesa das democracias. Ou não?

Afixado por Porfírio Silva em março 15, 2004 11:35 AM

De acordo quanto ao PP, mas nessa matéria (de serviços secretos), aquilo que tenho sabido nos últimos anos pela imprensa é assustador. Isto sem falar na extraordinária comédia que foi a divulgação da famosa "lista dos nossos espiões" na altura do ministro Veiga Simão, com evidentes culpas do PS, mas também do PSD, os dois maiores partidos portugueses.
Quanto ao futuro governo espanhol, desejo sinceramente que o PM Zapatero arranje forma de seguir as suas convicções na questão do Iraque, sem contudo enfraquecer o "nosso" campo, que é o da defesa dos nossos regimes, é bom não o esquecer.

Afixado por Miguel Magalhães em março 15, 2004 01:42 PM

Meu caro: eu prefiro ser cauteloso com certos conceitos. Tu, é claro, sabes muito bem o que é "o nosso campo". Mas, pergunto eu: os muçulmanos moderados, os árabes moderados, os crentes islâmicos moderados, os que são perseguidos pelos governos dos seus países, os que foram exilados desses países, esses são do "nosso campo" ou do "inimigo"? E os que, como o governo de Aznar, brincam com a mentira para fins de baixa política por cima do sangue das vítimas, são do "nosso campo" ou do "inimigo"? As coisas não são assim tão simples, meu caro Miguel - e é por isso que me repugna a (tua) ideia dos compagnos de route (ver a tua entrada de 6-fev no corpo deste blogue) e do pragmatismo na escolha dos aliados. As teorias dos "realistas" em relações internacionais só têm dado asneira.

Afixado por Porfírio Silva em março 15, 2004 02:27 PM

Já me esquecia, Miguel, mais uma pergunta: o que sugeres é que Zapatero, que prometeu durante a campanha retirar do Iraque, agora meta a sua promessa na gaveta e faça diferente? É assim que vês a política? Parece-te defensável que, depois do governo Aznar ter caído por ser mentiroso, o governo Zapatero comece o seu mandato pela escolha de ser também mentiroso? Meu caro Miguel, eu gostaria tanto de não te ver entrar por esse tipo de análise política... Milhões de espanhóis escolheram votar por uma razão moral (despedir os mentirosos) e, em menos de uma semana, deixaram para trás aquilo que tinha sido a sua opção político-partidária "normal" (votar PP) para fazer uma escolha "ética". Políticos hiper-racionalistas ficam atordoados com o sobressalto moral dos povos e inventam qualquer teoria que venha à mão. Mas nem tudo o que é sofisticado (ou apenas rebuscado) tem valor.

Afixado por Porfírio Silva em março 15, 2004 02:34 PM

Quanto ao Zapatero, subscrevo o que escreve hoje no Público a Teresa de Sousa: http://jornal.publico.pt/2004/03/16/EspacoPublico/O03.html
Quanto aos "muçulmanos moderados, os árabes moderados, os crentes islâmicos moderados, os que são perseguidos pelos governos dos seus países, os que foram exilados desses países", tudo o que eu escrevi só te pode levar a pensar que, sim, considero-os dos "nossos". Não sou ingénuo: sei bem que usas esta terminologia do "nosso campo" e do "inimigo" para tentar desqualificar o meu ponto de vista. Não é nada de novo como método de debate.
É verdade que assumi, tal como felizmente muitas outras pessoas, que me (nos) declararam guerra. E é verdade também que estou preocupado com a nossa falta de capacidade para enfrentarmos esse terrível desafio que nos impuseram.

Afixado por Miguel Magalhães em março 16, 2004 01:42 PM

Miguel: Basta leres o que vem acima para verificares que as expressões «"nosso" campo» e «nossos regimes» foram introduzidas por ti. Logo, não é razoável que me acuses de introduzir essa terminologia e ainda por cima me acuses de que isso é uma tentativa de desqualificar o teu ponto de vista. Não estou muito virado para entrar em meta-argumentos, muito menos quando eles não respeitam a factualidade do que se disse. Interessa-me mais a substância. E, para mim, a substância é que o teu raciocínio sobre esta matéria é simplista e, sendo simplista, é perigoso. Usas argumentos que pressupõem que o mal está todo de um lado e o bem todo do outro. Dizes que nos declararam guerra. Pois, mas quem é o "nós" dessa declaração? Por aí passa uma parte do problema e, quando os problemas são complexos, os raciocínios simplistas devem ser afastados. Também me declaram guerra aqueles que violam o direito internacional e agem como as milícias populares no plano mundial. O conceito apropriado é "espiral de violência". E nenhuma espiral de violência se detém com mais do mesmo. Se o que queres sublinhar é que há muita ingenuidade em certas leituras da cena internacional, concordo contigo. Mas, para não ser ingénuo não basta (nem é preciso) ser "falcão". Eu, pelo meu lado, penso que não há pior ingenuidade do que ser simplista face à complexidade. Manda sempre.

Afixado por Porfírio Silva em março 16, 2004 03:20 PM

Ainda bem que finalmente polemicamos. Para ajudar, vou dizer mais algumas coisas simplistas, já que a guerra, infelizmente, simplifica muito as coisas. O meu problema é aperceber-me da falta de solidariedade que existe entre adversários políticos em democracia. Bush, Sharon, Chirac, Aznar são adversários políticos, não são inimigos da democracia. O facto de o sistema eleitoral dos EUA ter permitido a eleição de Bush não me faz esquecer que somos aliados. O facto de não concordar com a forma como foi invadido o Iraque, não me impede de desejar que "aquilo corra bem" e de me regozijar com a captura do Saddam. O facto de o Sharon estar a utilizar as forças armadas dum modo brutal, injusto e oportunista não me impede de reconhecer que em Israel há eleições, há liberdade de imprensa e de associação. Na Cisjordânia e em Gaza, só há liberdade de imprensa e de associação para os terroristas. O mesmo acontece nos pequenos municípios bascos controlados pelos amigos da ETA. Aqui é que está o busilis: eu não aceito que as nossas regras para tempos normais nos impeçam de, em tempos excepcionais, nos armarmos contra os nossos inimigos mortais. Sim, sou a favor de legislação de excepção para combater o terrorismo, sim, sou a favor dos controlos reforçados nas fronteiras dos EUA, de agentes à paisana nos aviões, etc. Quantos milhões de mortos e quantos anos de guerra se teriam poupado se em 1936 e/ou em 1938 as democracias europeias, em vez do apaziguamento tão desejado pela opinião pública, tivessem tido uma atitude belicosa contra Hitler, como era aconselhado por alguns que eram então considerados "perigosos belicistas"? O problema com o excesso de escrúpulos em tomar medidas fortes é que elas serão necessárias de qualquer maneira e quanto mais tarde foram tomadas mais consequências negativas terão. Para terminar, se é verdade que a guerra é um assunto demasiado sério para ser deixado unicamente sob responsabilidade dos militares, não é menos verdade que a paz é um assunto demasiado sério para ser deixado unicamente sob responsabilidade dos pacifistas.

Afixado por Miguel Magalhães em março 17, 2004 08:23 AM