Comentários: Again: Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

Uma resposta a quatro comentários, já que dizes que não respondo. Como sabes, não é verdade.
1 - A guerra não simplifica tudo, mas simplifica alguns dilemas morais, devido ao carácter brutal e inadiável de certas escolhas. Mesmo em relação a certos extremismos (que não são, por enquanto, terroristas) há que ter uma postura minimamente coerente. O exemplo recente do Partido Socialista da Áustria que se aliou com o Haider na Caríntia, quand há poucos anos andou a convencer os governos socialistas (e não só) europeus a boicotarem a Áustria por esta ter um governo de coligação com o Haider é uma vergonha.
2 - Se a política dos EUA mudar, eu fico contente porque não concordo com esta. Mas, embora não concorde com esta, prefiro que os EUA e aliados na coligação consigam arranjar uma saída "airosa". Portanto, não preciso de mudar de opinião se mudar a política dos EUA.
3 - Curiosamente eu falo em eleições, liberdade de imprensa e liberdade de associação, mas tu perguntas-me se eu acho que eleições bastam. Penso que está respondido. Tenho plena consciência de quanto os fundamentalistas judaicos têm prejudicado Israel, os israelitas e os judeus. Mas insisto em afirmar que em Israel existem eleições, liberdade de imprensa e liberdade de associação e isso não acontece em nenhum país oficialmente inimigo de Israel.
4 - Conheço muito bem o argumento que se opõe a qualquer medida mais antipática por alegadamente ser ineficaz e ser, de certeza, desviada para outros fins. É exactamente o problema que eu levanto na minha mensagem anterior. Sem um mínimo de boa-fé e confiança entre os partidos democráticos não é possível combater o terrorismo. Há uns anos, em Espanha, houve um caso paradigmático: os GAL. Nessa altura não havia blogues, mas eu defendi o PSOE publicamente em alguns debates. Se os partidos políticos (o PP, os nacionalistas bascos, alguns elementos dentro do próprio PSOE) e muitos magistrados só estão preocupados em nunca ultrapassar os limites duma estrita legalidade e desatam a disparar contra os governos à primeira derrapagem, o que pode fazer um governo responsável que tem que fazer o que tem que fazer? Ficar a olhar, impotente e alheado, para as actividades criminosas da ETA? Aquilo que eu digo é que as democracias não podem ser virgens suicidas. Têm de ter armas, serviços secretos, polícias e práticas (sim, sobretudo práticas) de combate ao terrorismo. Não é possível fazê-lo, se a nossa principal preocupação for apenas ganhar as próximas eleições ou manter o poder a todo o custo.

Afixado por miguel Magalhães em março 17, 2004 02:03 PM

Já percebi qual é a tua técnica: falar de tudo ao mesmo tempo e não levar nenhum assunto até ao fim. Começámos em Espanha, passámos para Israel, agora estamos na Áustria. Fica-te muito bem assumires que apoiaste o PSOE na questão dos GAL. Fica-te bem porque mostra qual é a tua linha: há terrorismos maus e terrorismos bons. Parece, aliás, que há muito tempo preferes o terrorismo de Estado - e que continuas a preferi-lo, porque para esse arranjas sempre desculpas. A minha linha não é essa. Quanto ao mais: o meu método não é discutir tudo ao mesmo tempo só porque tu adoptas o método do caleidoscópio. Por isso, vou ficar-me por aqui. Podes continuar a fazer rodar os temas à tua vontade. Um abraço.

Afixado por Porfírio Silva em março 17, 2004 02:23 PM

Só um pequeno comentário para não se dizer que uso a técnica do caleidoscópio. Comparar o terrorismo (Ben Laden, Hamas, ETA, IRA,etc.) com as actividades de defesa do Estado democrático é algo que sou incapaz de fazer. Terrorismo de Estado é o que faz a Coreia do Norte ou fazia o Iraque de Saddam ou fazia a Alemanha nazi, a Espanha franquista, a URSS estalinista. a China maoista ou o Camboja de Pol Pot. Lamento, mas não sou sequer capaz de compreender quem compara Bush a Hitler. Quanto ao Iraque, é fácil distinguir um discurso responsável dum discurso irresponsável. Basta comparar o que Sampaio e Louçã disseram sobre a presença da GNR no Iraque.

Afixado por Miguel Magalhães em março 17, 2004 02:50 PM

Os GAL eram terrorismo de Estado. Promovido por um partido socialista. Custa-te a aceitar? Também a mim. É por isso que os simplismos não funcionam: nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista analítico.

Afixado por Porfírio Silva em março 17, 2004 03:09 PM

Os GAL foram o resultado duma situação em que muitos dos agentes que deviam defender o Estado democrático (políticos, magistrados e jornalistas, por exemplo) só se preocuparam em impedir que o governo tivesse capacidade para actuar de forma eficaz contra a ETA. Eu não defendo os GAL. Defendo é que se deveria ter compreendido melhor o dilema insolúvel com que o PSOE se teve de debater e, portanto, dever-se-ia ter sido benevolente no julgamento dos culpados. Cá está, podes dizer que eu defendo que a lei não é igual para todos. Mas o que eu defendo mesmo é que as democracias têm de ter meios para fazer também os trabalhos sujos que são necessários para a sua defesa. O que nos diferencia dos terroristas nesta matéria é sabermos que só o queremos a título excepcional, em situações de extrema necessidade. A não ser assim, terão eles as armas todas e nós todos os impedimentos. É uma guerra demasiado desigual para poder ser vencida.

Afixado por Miguel Magalhães em março 17, 2004 03:33 PM

Meu Caro Miguel: Levaste as coisas a um ponto em que eu já não preciso de dizer nada. Basta ler as tuas palavras. Está lá tudo. Eu podia dar-me ao trabalho de fazer uns "recortes" dos teus comentários e teria assim um retrato fiel do ponto a que chegaram certas opiniões nos dias de hoje. E depois perguntava: é esta a democracia e a paz que tu queres? Mas não vale a pena, porque não é preciso procurar muito. Em tempos difíceis precisamos de mais ponderação e menos excitação.

Afixado por Porfírio Silva em março 17, 2004 04:25 PM

Concordo em que fiquemos por aqui. Pela minha parte, este é o último comentário que farei. Só posso acrescentar que preferiria estar enganado e não ter de olhar de frente para as difíceis opções que temos de assumir. É verdade que seria melhor que não houvesse armas, mas o que não posso aceitar é que haja fanáticos com armas viradas contra mim sem que eu (e quem me representa) esteja capacitado para resistir e vencê-los.

Afixado por Miguel Magalhães em março 18, 2004 08:40 AM

Miguel: Penso que tu e eu queremos ambos o mesmo, como resultado final. Discordamos acerca do diagnóstico e acerca da terapêutica (talvez mais acerca da terapêutica do que acerca do diagnóstico). Mas acredito que nunca nenhum de nós se passará para o lado dos que preferem matar o doente. Por isso, aceito sempre as polémicas (por mais duras que sejam) com quem pode querer berrar comigo, mas não quer apertar-me a garganta. Volta sempre!

Afixado por Porfírio Silva em março 18, 2004 09:35 AM

Bom, penso que existem argumentos válidos de ambas as partes. Sem dúvida que as democracias não devem ser virgens suícidas, no entanto a criação de grupos como os Gal,está mais que provado que não funciona. Como já foi referido, Israel é um bom exemplo, as incursões militares sobre os territórios palestinianos so desencadeia a raiva e a fúria. Penso que um bom meio para a solução deste tipo de conflitos passa por uma política de consenso entre as duas "terapias" anteriormente apresentadas. O cruzamento de informações entre policias e organizações de combate ao terrorismo e banditismo e uma politica mais pragmática que dogmática traria resultados muito mais positivos.

Afixado por Pedro Padesca em abril 4, 2004 03:33 AM