Caro Porfírio,
Lamento desiludir-te mas as “certas coisas” que queres evitar no teu blogue são possivelmente as mais interessantes que por cá aparecem, pelo menos do meu ponto de vista.
Suponho que estarás a fazer um esforço no sentido de evitar circunscrever à actualidade política ou aos temas políticos o conteúdo do teu blogue mas, de facto, foi nesta área que encontrei algumas das reflexões mais interessantes, vide não apenas as resultantes da mais recente “escaramuça” com Miguel Magalhães mas também as da anterior com Vital Moreira.
Aliás, mais uma prova disso é o facto de hoje me ter sentido tentado a alinhavar algumas linhas em torno da polémica em torno do “terrorismo”, quando até agora me tinha mantido atento mas silencioso.
Desde o dia em que o presidente Bush declarou “guerra ao terrorismo” que sinto que, talvez deliberadamente, se tenta enfrentar um fenómeno complexo pela via simplista de “meter tudo no mesmo saco”. Seguindo a lógica maniqueísta de dividir permanentemente o mundo entre bons e maus (o que do ponto de vista da comunicação política junto de um eleitorado pouco esclarecido e pouco empenhado em se esclarecer até pode ser uma via eficaz), a “guerra ao terrorismo” passou a ser tratada como se a Al-Qaeda, o IRA, o Hamas, a ETA, o Abu Sayaf, os rebeldes chechenos, as FARC, ou qualquer outra organização que combate através das armas, pelos mais variados motivos, governos próximos dos Estados Unidos, não passassem de bandos de malfeitores que, presumivelmente de forma articulada entre si, combatem as democracias e põem em causa a paz mundial.
Sem querer apoiar a forma ligeira como Mário Soares se referiu à necessidade de negociar com os “terroristas” (pois penso que a questão está mal colocada à partida quando se aplica a eito o rótulo de “terrorista”, não se percebendo, portanto, do que, ou de quem, se está a falar quando se diz “os terroristas”), reconheço que a forma como hoje se generaliza a utilização da palavra “terrorista” e, sobretudo, como se procura uma fórmula única (a da força) para lidar com todos os “terrorismos” é, muito provavelmente, a pior maneira de tentar ultrapassar esse grave problema que afecta quase todas as sociedades ocidentais e ocidentalizadas (cada vez existem mais “sociedades ocidentais” noutros pontos geográficos).
Valeria a pena reflectir sobre os objectivos políticos e os meios utilizados por cada uma das organizações ditas “terroristas” e o quadro histórico e social em que cada uma delas nasceu e se desenvolveu, antes de as meter a todas no mesmo saco e de aplicar a todas a mesma receita.
Não sei se os rebeldes que se bateram pela independência dos Estados Unidos da América, na segunda metade do século XVIII, não poderiam ser considerados “terroristas” à luz dos critérios de hoje...