Comentários: Esforço-me por aceitar

«Aceitar».«Sem espanto».Calado, «sem interrogar» - belo Epicurismo. Porém... «a vida oferece» e «a minha estada é estranha». Como não nos ESPANTARMOS (na linha de José Gomes Ferreira)?
Ah! entendo: vivermos 'tendo como se não possuíssemos'... (Inácio de L.) Belo poema, antecâmara do «Máximo Respeito pela Vida Ofertada» (aquilo a que chamo 'a contemplação da Graça'). Para mim, a Fé está cada vez mais próxima da Poesia (ou melhor, ao contrário).
PARABÉNS, SOLEDADE.

Afixado por stewart em março 27, 2004 02:47 PM

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por isso passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha

Respondo a repto, para que possamos intuir a plenitude da música! Um abraço.

Afixado por adesse em março 27, 2004 05:21 PM

Stewart, a nossa leitura do rubiyat converge até certo momento, e depois diverge, a partir da questão do espanto.

Para mim, é mesmo "aceitar sem espanto", nesta ode tristíssima, aspiração à capacidade de renunciar à esperança.

Um beijo, Stweart, obrigada pela sua gentileza

P.S.: Fé e Poesia? Não sei, meu amigo. A mim não foi concedida a Graça.

Afixado por Soledade em março 27, 2004 10:30 PM

Olá, adesse, foi rápida no gatilho :-)
Oiçamos, pois, a música
abraço

Afixado por Soledade em março 27, 2004 10:35 PM

também não pedi para viver.
não me espanto, mas desfaleço em cólera com a visão deste mundo.
perguntei a muitos o porquê desta estranha estada na terra.
a resposta talvez seja negar tudo o que fiz, e ler os filósofos com mais atenção.

Afixado por carlos peres feio em março 27, 2004 11:08 PM

A cólera não é zen, Carlos. Se é que me entendes (não sei o emoticom para sorriso amarelo, mas com pontinha de malícia, cabia aqui)
beijo

Afixado por Soledade em março 28, 2004 12:16 AM

"Segue o teu grande caminho!
As Estrelas que encontrares
São como Tu mesmo -
Pois o que são as Estrelas senão Asteriscos
Para sinalizar uma Vida humana?"

E. Dickinson, "Poemas e Cartas", Lx, Antol. Nuno V. Almeida, Trad. Nuno Júdice

É muito bonito, poema e imagem, Sol. Mesmo imbuído de fatalismo resignado.
Beijo.

Afixado por LE. em março 28, 2004 04:43 AM

Não me parece a mim poder este belo poema ser considerado epicurista.Antes estóico...e a lembrar muito Ricardo Reis...e a aceitação voluntária de um destino involuntário .
Mas o final do poema de Khayam suoera o muito que mesmo Ricardo Reis possa ter escrito,bastantes séculos depois, penso.

Afixado por amelia em março 28, 2004 11:59 AM

Nosso corpo, nossos olhos, nossa capacidade de pensar nas coisas, estão sempre a trair-nos. Porque estamos vivos e mesmo que a ninguém perguntemos, perguntamo-nos. E mesmo que não queiramos esperar, esperamos.
Um beijo Sol,e obrigada pela oferta do Khayyan.

Afixado por eugênia em março 28, 2004 12:47 PM

Aceitar sem espanto. Viver simplesmente.E nada mais. Belo, Sol. Muito belo.
Um beijo.

Afixado por Márcia em março 28, 2004 07:14 PM

Obrigada pela Dickinson,LE.
bj

Afixado por Soledade em março 28, 2004 09:41 PM

Concordo, Amélia - como Reis, estóico e estranho em terra estranha. Mas mais silencioso, todo a sós consigo...

Tantas vezes folheei as Odes ao Vinho, mas nunca me tinha detido nesta. Agora acho-a de uma beleza insuportável, como costumava dizer o nosso amigo Daniel.
bj

Afixado por Soledade em março 28, 2004 10:02 PM

Sei que sim, xará :-)
bj

Afixado por Soledade em março 28, 2004 10:06 PM

Márcia, belo, mesmo, é partilhar - e levar aos amigos a mesma comoção que a nós tocou.
bj

Afixado por Soledade em março 28, 2004 10:15 PM

Sem querer polémica, devo acrescentar que estou plenamente coincidente com a opinião de Eugênia. Mas também valeria a pena ler Fernando Pessoa (Escritos Autobiográficas, pag. 105) ou Adélia Prado (Cadernos de Literatura, Entrevista, Brasil). Eu sei que a Poesia não é um instrumento-de-soluções, mas dalgum modo o é. O choque que a palavra produz, apela sempre para uma reacção. Quando leio o seu blog, sem querer, reajo (ou seja, escrevo para me reformular a mim e só a mim). É só. Obrigado pela oportunidade de pensar alto, mais uma vez, Soledade.

Afixado por Stewart em março 29, 2004 06:24 PM

Stewart, por mais que eu desejasse trilhar, "para não doer", o caminho deste rubaiyat, a opinião da Eugênia é a minha também, porque sou humana. Afinal trata-se apenas de um poema e das nossas leituras dele. E onde está o mal de polemizar? A sua opinião é sempre bem vinda.
um beijo
P.S.: Não tenho os Cadernos da Adélia, mas vou conferir o Pessoa

Afixado por Soledade em março 29, 2004 06:51 PM