Isto não é um comentário, é simples conversa a propósito.
Fui aluno do Conservatório de 1934 a 1943.
O S. Carlos (tal como a Sociedade de Concertos e o Circulo de cultura Musical) oferecia uma porção de bilhetes à Associação dos Alunos do Conservatório, para cada concerto (e espectáculos de ópera).
Fui um beneficiário regular dessas ofertas.
Lembro-me de ter assistido então a um concerto da Guilhermina Suggia, no S. Carlos. Deve ter sido o recital de homenagem ao General Jordana.
Não sei dizer de que cor era o vestido da artista, mas lembro-me que "dava nas vistas". Quando sentada quase desaparecia sob os muitos metros de pano.
Mas mais do que o vestido impressionaram-me os movimentos dos seus braços, que me pareceram muito exagerados.
Muito novo ainda, a Guilhermina Suggia deu-me a impressão de gostar de "dar espectáculo". Suponho que terei saído do S. Carlos incomodado, a pensar que para se tocar bem violoncelo não é preciso tanto esbracejar...
Não tenho palavras para descrever o prazer do reencontro que o vosso weblog me proporcionou.
E a anedota dos 60 contos é engraçadíssima.
Vou visitar todo o vosso weblog.
Fernando Marques Pinheiro.
Que bom que é termos as palavras de alguém que viu e ouviu suggia.
De facto tenho ouvido comentários à exuberante figura no palco, mas parece (todos os testemunhos vão nesse sentido) que tocava mesmo bem.
Em Dez de 1942 foi o concerto para o General Jordana, mas em 1943 Suggia tocou no S. Carlos em 21, 22 e 25 de Janeiro com a Orquestra da Emissora Nacional dirigida por Malcolm Sargeant.
voltou a tocar no mm ano em Maio com a Orquestra Sinfónica Nacional, dirigida por Pedro de Freitas Branco.
Dê-nos mais testemunhos sobre Suggia. É importante.
Saudações
Afixado por vm em abril 12, 2004 12:12 AMPara se poder ter um pouco da noção do que seriam 60 contos em 1942, não resisto a dar nota dum anúncio que ontem vi no Diário de Notícias de 1943: Vende-se prédio em Lisboa, por 100 contos, com rendimento de 12 contos mensais. Teria que ser um óptimo prédio para garantir 12 contos mensais de rendas.
Em 1946 vem uma notícia sobre o excessivo custo de um concerto no Tivoli, em Lisboa: 7,5 contos com pagamento de todas as despesas ( aluguer da sala,pessoal,publicidade, orquestra e 1.000$00 a solista.)
Afixado por vm em abril 13, 2004 12:01 PMHá poucos dias um jovem que assistiu a um concerto de Guilhermina Suggia no Teatro de S. Carlos, aludiu aqui, em “Suggia, Ferro e Salazar”, a dois pormenores que ficaram gravados na sua memória visual : o vestido da artista, que “dava nas vistas”, e os movimentos dos braços, que lhe pareceram “exagerados”. Do que ouviu, do que escutou, nada disse. Ainda escutava mal. Guilhermina Suggia deixou-o indiferente.
Mas quase setenta anos depois surgiu este weblog e com ele a indiferença desse jovem foi quebrada. Surgiu a curiosidade e logo a seguir a admiração.
Hoje proponho um pequeno exercício a realizar dentro deste weblog.
Depois de, com “Suggia, Ferro e Salazar”, se imaginar o ambiente que rodeou o concerto de Suggia realizado no S. Carlos conjuntamente com banquetes, recepções, tourada à antiga portuguesa, etc., tente-se imaginar o ambiente num outro concerto, este em Londres, lendo-se as palavras da própria Guilhermina Suggia que se encontram neste weblog em “Carta a uma amiga sobre o concerto de Albert Hall”.
Eis algumas dessas palavras :
(...) “o meu concerto no Albert Hall foi triunfal (...). (...) estava triste, o que comoveu muita gente que tinha lágrimas nos olhos – incluindo a Rainha” (...).
“A Rainha, com a princesa Margaret e a sua corte, recebeu-me no fim, tendo para mim palavras comovedoras, dizendo que nunca nenhum artista a tinha entusiasmado tanto e que era preciso eu vir mais vezes aqui pois que os ingleses me adoravam. Bebemos champanhe (...) e ela bebeu à mais velha aliada” (...).
“Estava triste”, escreveu Guilhermina Suggia a propósito da maneira como tocou neste concerto.
Veja-se agora também neste weblog, em “Guilhermina Suggia e Vianna da Motta”, a alusão do Dr. João de Freitas Branco a intérpretes “intelectuais” e intérpretes “impulsivos”, colocando Guilhermina Suggia na categoria dos “impulsivos” e Viana da Mota na dos “intelectuais”.
Mas note-se que, se por um lado Freitas Branco classifica Suggia como “impulsiva”, por outro lado não omite o facto da artista fascinar o público pela fibra da sua “interpretação” - tal como Viana da Mota obtinha as suas coroas de glória ao “interpretar”, como também diz Freitas Branco, o pensamento beethoveniano ou de Bach.
Possuidora de uma enorme sensibilidade, Guilhermina Suggia terá, de facto, parecido algumas vezes arrebatada, ou incontida, ou...“impulsiva”..., mas também o Dr. Luís de Freitas Branco aponta nela “a elegância da linha melódica, a vivacidade do ritmo, a graça da simples inflexão da frase”. E isto revela uma natural contenção.
Resta que, como é evidente, entre o calor da sensibilidade e a frieza do intelecto, a escolha é livre, para quem se dispõe a ouvir.
Fernando Marques Pinheiro.
Acho que mesmo que não houvessem mais razões para estarmos contentes com a divulgação da vida e obra de Suggia, o facto de uma ideia sobre a genial intérprete ter sido alterada, em melhor sentido, já tinha valido a pena.
Apesar de tudo queremos mais: que se faça justiça.
Que se honre a memória de Suggia, que se cumpram os seus desejos expressos no testamento, nomeadamente no que diz respeito ao prémio Suggia a atribuir pelo Conservatório de Música do Porto. Que a memória de seu pai seja respeitada e dignificada, retificando a placa que se encontra na sepultura de Suggia, que a casa onde viveu e morreu seja poupada à destruição.
Queremos que Portugal respeite Suggia pelo menos tanto quanto ainda é respeitada no resto do mundo, nomeadamente em Inglaterra.