Comentários: Valorização dos nossos Artistas Músicos

Nota-se a relativa juventude de Lopes Graça, no seu brado veemente contra a passividade de uma maioria que só venerava o que lhe era apresentado como modelo: o que não era seu, que o nacional poderia ser perigoso... e de tal forma que, passados apenas quatro anos sobre a morte de Vianna da Motta e só dois sobre a de Guilhermina Suggia (que não dedicaram músicas a aniversários da “revolução nacional”) a sua arte estava já bem longe, na memória do público daquela tenebrosa década de 1950, em que – não podemos ignorar: é agora o cinquentenário – um ilustre diplomata português iria morrer após passar mais de uma dezena de anos com fome, proibido de exercer todas as profissões para que tinha estudado, como castigo da sua heróica filantropia para com os que Hitler perseguiu; e uma ceifeira, mulher de um pobre cantoneiro do Ministério das Obras Públicas, iria ser fuzilada ao bradar por pão suficiente para os filhos, como justa paga do seu duro trabalho. Pobre rainha Maria Antonieta que, pouco mais de século e meio antes, fora decapitada sem ter mandado fuzilar as mães que assim também bradavam, mas apenas sugerido levianamente a substituição do pão por bolos! Onde estariam os benefícios de tanto sangue derramado?
Sabendo de nada adiantar rebelar-se abertamente contra os poderes que mantinham o público nesta desconfiança provinciana de tudo o que era nacional – a Comissão de Censura impediria que o lessem – restava a Lopes Graça admoestar directamente a carneirada submissa. É certo que a frase “já lá dizia o Nobre: que desgraça nascer em Portugal! ” pode parecer infeliz, quanto à linguagem, mas imagine-se a satisfação íntima que não lhe terá dado antever o trabalhão que iriam ter, a investigar escritos em que um tal Nobre teria dito mal de um país tão bem governado, uns ignorantes esfomeados que até proibiram um livro de engenharia por ele ter como título, O Concreto Armado. Ainda menos conveniente seria chamar, ao poeta, apenas António, - poderiam até julgá-lo a atribuir blasfémias ao Presidente do Conselho, e a tratá-lo sem respeito. Finalmente, aquela inspiração apaixonada que levou o compositor a deixar-nos canções deliciosas como as heróicas e as populares ter-lhe-á sugerido o nome “Anto”, que o poeta se chamava a si próprio? Talvez, mas o público de então pouco mais saberia de poetas do que os censores, e os tempos eram de luta.
António Nobre que afirmava - com uma certeza talvez até modesta - que, dali a cem anos, ninguém falaria senão da sua poesia e “da do Luís” (de Camões) conheceu a glória bem cedo, por ter morrido a tempo: se tivesse chegado às décadas de 30 ou de 40, quem sabe se não lhe teriam feito o mesmo que a Vianna da Motta e a Guilhermina Suggia?

Afixado por Ana Maria Costa em abril 16, 2004 02:29 PM