A grande questão deste problema é política. Este programa foi criado durante o anterior governo e começava a destacar-se pelo sucesso indicado pelos números - redução da criminalidade juvenil - factor algo incómodo para o actual executivo. Era premente a necessidade de alguma cosmética (pois a completa extinção seria aproveitada pela oposição): substituição do cordenador nacional (provavelmente convidado pelo PS), atribuição de competências a um diferente organismo (ACIME), redução do orçamento para metade, etc.
É verdade que o orçamento do programa foi poupado em 60% mas isto não é obrigatoriamente um facto positivo. Este dinheiro poderia por exemplo ter sido aproveitado na contratação de mais técnicos (houve bairros com 300 jovens inscritos monitorizados por apenas 2 técnicos), melhores instalações (aquecimento no inverno, reparação de espaços, etc, actividades mais ambiciosas (os passeios tinham de ser praticamente gratuítos para serem realizados), e melhoria das condições dos técnicos (mairitariamente licenciados) que auferiam em média 600 euros líquidos,a recibos verdes, sem qualquer subsídio de férias ou de risco, apesar de trabalharem nos piores bairros do país.
Eduardo Vilaça tratava todos os técnicos e coordenadores (90% licenciados) por tu, exigindo ser tratado por dr. Vilaça - noublesse oblige, criando um ambiente de mau-estar entre coordenadores e técnicos. Os coordenadores tinham como principal função vigiar atentamente todos os passos dos técnicos, exigindo inúmeros relatórios, fazendo visitas surpresa, pressionando, etc.
Dr. Vilaça, o sucesso do Escolhas não se deveu a sua gestão, método de gestão empresarial americano), nem aos seu rapazes que irrompiam de surpresa pelos espaços exigindo relatórios de milhares de páginas, sem estabelecer qualquer contacto com os jovens "das barracas", mas sim à crise que o país atravessa - o que obriga jovens técnicos licenciados a comer o pão que o diabo amassou por pataca e meia sem reclamar - e à ligação afectiva que surge naturalmente (em pessoas normais) entre técnicos e os putos dos bairros, famintos por atenção.
António Caeiro
Afixado por Antonio Caeiro em setembro 9, 2004 11:55 PM