Joaquim, estive fora, em "Tierras Charras", por mou dos compromissos universitários e o nosso repasto, mais uma vez, ficou por cumprir! Também pela primeira vez falhei o "Museu Aberto"... comparado com Salamanca, talvez perdesse, talvez(!) era uma questão sentimental. O alentejanando repôs os índices telúricos...
Contudo, perante o galar das melancias à procura da vermelhinha, a retribuição para falar do imenso Sul só pode ser com prosa ao jeito do Conde de Ficalho, quando falava de uma Horteloa que regava o meloal e ia ao poço tal como os seus antepassados o tinham feito em qualquer oásis da outra banda - "Dos canteiros do meloal, regados de fresco, orlados de milho em flor, levantava-se pouco a pouco uma humidade ténue que adoçava o ar e àquela hora, a horteloa e a filha tomavam o fresco, sentadas em cadeiras baixas, num terreirinho varrido diante da casa.A rapariga ia-me buscar uma cadeira; o hortelão largava a enxada da rega, soltava a mula velha da nora, e vinha também para ali, em mangas de camisa, com o colarinho desabotoado. Conversávamos tranquilamente:... Daqueles fortes calores que iam queimando a uva toda, da novidade de laranja que prometia, do peco que tinha dado nos abrunhos."
Joaquim, calhando, já agora ponho mais prosa:
"Não corria vento; a campina dormia, extenuada e lassa, acordando a custo daquela longa sesta, dormida sob o sol implacável. E muito longe, para os lados da serra, os fumos grossos das queimadas subiam perpendiculares no ar parado.As moças da vila começavam a descer para o poço em pequenos riachos, às duas, às três, às quatro, com as suas bilhas – as suas infusas – vazias, atravessadas sobre a cabeça.
Algumas vinham já de volta, com as infusas cheias, molhadas de mergulharem no poço, esguias e bem aprumadas. Subiam num passo firme, envolvidas nos grandes xailes escuros de lã, com os lenços de chita traçados na boca, naquele abafo tão singular e tão característico do nosso povo do meio-dia.
Pareciam assim mais altas, alongadas pela curva da infusa e pelas pregas rectas e caídas dos xailes. Ao cruzarem-me, via-lhes apenas os olhos bem fendidos, assombrados pelas pestanas negras; e elas, sem voltarem a cabeça, sem um gesto, diziam-me baixo, no tom lento de uma saudação grave:
– Tenha muito boas tardes.
Aquelas figuras negras, envoltas e quase veladas, atravessando as linhas daquele país árido e pálido, levavam-me o pensamento para longe e para trás. Podia julgar-me em alguma vilazita dos confins do Sara, em El-Aguat ou In-Salá, onde, an sol-posto, as raparigas muçulmanas, veladas e misteriosas, descem a encher os cântaros no poço do oásis, sob a folhagem rígida das palmeiras, enquanto, à volta, as sombras azuladas vão invadindo lentamente as longas colinas de areia. E pensava que estas moças eram do mesmo sangue; desciam ao poço como desceram as suas avós, e as avós das suas avós, desde as raparigas berberes, que passaram o estreito com os exércitos de Tarique.
Perante o encanto, triste mas tão penetrante, destas coisas e destes hábitos velhos, destas coisas que são porque já foram eu sentia uma pena funda – a pena de que tudo aquilo acabasse mais dia menos dia, destruído pela nossa civilização reles e niveladora. Porque era fatal, dentro de dois, de três, ou de dez anos, viria uma municipalidade ilustrada, louvada em artigos de fundo pelos jornais de dez réis, que dotasse a vila com os melhoramentos materiais indispensáveis. E então, encanada a água, postos marcos fontenários nas esquinas das ruas, as moças deixariam de vir ao poço como vieram as suas avós, e as avós das suas avós, desde os antigos tempos de Tarique."
Já chega de...!Um abraço.