Comentários: Dia Internacional do Livro Infantil

O direito irrenunciável de ler


José António Gomes


Abril é o mês do livro. E também o mês da liberdade. Período em que importa, por isso, reflectir sobre a funda experiência de liberdade e cidadania que a leitura de um livro pode proporcionar.
Quem não consegue renunciar a essa experiência sabe que ler, em primeira instância, é entrar numa conversa. E esse diálogo com a voz de um autor – que é depois, e também, um «tête à tête» com o herói de um conto, uma novela ou um romance – constitui, por si só, uma vivência da tolerância, do confronto intelectual de ideias e sentimentos, um lugar de aceitação activa da diversidade. A diversidade das culturas, das ideologias, das crenças religiosas, a diversidade dos olhares e dos modos de sentir e estar no mundo. Além de permitir esta aprendizagem da comunicação entre os homens (que é também aprendizagem da língua nos seus vários planos de funcionamento), a leitura oferece, àquele que lê, a oportunidade de se ir situando em relação ao mundo que o rodeia e de construir criticamente a sua própria identidade. E é por isso que nunca os regimes ditatoriais ou obscurantistas se empenharam em promover seriamente a leitura e, sem o confessarem, sempre preferiram o analfabetismo e a iliteracia, que mergulham o homem na ignorância das servidões a que está sujeito. Por isso – quase sempre em nome da economia – desinvestem na cultura, desinteressam-se da construção de bibliotecas, e propagandeiam uma noção redutora da cultura como «património» ou como mera galeria de glórias passadas.
Mas ler (poesia, narrativa, drama…) é igualmente uma forma de construir mundos imaginários a partir de um texto, permitindo àquele que lê desenvolver a consciência das suas próprias faculdades na utilização da linguagem verbal. Uma linguagem que – descobre-se então – não serve apenas para comunicar, mas também para criar objectos textuais, eventualmente estéticos, e para entrar nesse ludismo infindável que é o jogo das palavras, o jogo irrenunciável do literário.
2 de Abril é o Dia Internacional do Livro Infantil, 23 de Abril o Dia Mundial do Livro, 25 de Abril o Dia da Liberdade. Meditemos nas três datas, pensemos no livro. Sem esquecer que Portugal é um dos países da Europa onde menos se lê e onde mais horas são passadas diante de uma televisão que nos envergonha. E, em conformidade, saibamos reclamar para as nossas crianças e os nossos jovens a possibilidade de um dia se tornarem cidadãos mais cultos e livres, mais críticos e conscientes dos seus direitos. Pois, como lembra a escritora grega Angeliki Varella, «a ‘luz’ dos livros nunca se apaga».

Afixado por José António Gomes em abril 2, 2004 07:28 PM